CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Shakespeare e Mark Twain em cordel

Por Marco Haurelio no blog “Cordel Atemporal”: marcohaurelio.blogspot.com

A coleção Clássicos em Cordel, da Editora Nova Alexandria, a mais premiada de todas as coleções do gênero no Brasil, ganha dois lançamentos fantásticos.

Romeu e Julieta, a mais famosa peça de de William Shakespeare, foi cordelizada por Sebastião Marinho, que soube extrair do original toda a grandeza trágica. Ao mesmo tempo, sua recriação traz elementos novos que mostram que o poeta não quis simplesmente apresentar uma cópia, em versos rimados, do velho drama teatral, explorado exaustivamente pelo cinema e pela própria literatura. A Julieta da versão em cordel é plena de graciosidade, mas Sebastião vai além, ao compará-la com deusas dos velhos panteões, em duas estrofes primorosas que remetem aos grandes nomes do Romantismo literário:

A personificação
De Vênus, Ísis, Latona.
Se Leonardo da Vinci
Exagerou na Madona,
Deus acertou na beleza
Da jovem flor de Verona!

Outra passagem marcante, dentre as muitas dignas de menção, é a que se refere ao retorno de Romeu a Verona, no cemitério, onde imaginava repousar o cadáver de Julieta.

Pios de feias corujas,
Os inóspitos mausoléus,
Cruzes, ossadas humanas,
Os macabros fogaréus,
Arrepiavam os cabelos
Dos mais convictos incréus.

E nos espectros escuros
Das catacumbas geladas
Romeu parecia ouvir
As sinistras gargalhadas
De centenas de caveiras
Seguindo suas passadas.

Já O príncipe e o mendigo, publicado em 1881, retrata uma época bem anterior, o século XVI, quando Henrique VIII (1491-1547) governava a Inglaterra. Este rei era, ao mesmo tempo, um grande administrador e um tirano detestável. Foi o criador da Igreja Anglicana, após rompimento com a Igreja Católica, que não aprovou seu divórcio com Catarina de Aragão e sua união com Ana Bolena. Esta, que foi mãe da futura rainha Elisabeth I, após ser acusada de adultério pelo próprio marido, foi condenada à morte e executada. Do terceiro casamento de Henrique com Jane Seymor nasceria seu sucessor, Eduardo Tudor, o príncipe retratado no romance de Mark Twain. A vida de Eduardo foi marcada pela tragédia desde o nascimento. Sua mãe morreu 12 dias depois, em decorrência de complicações no parto. Ele próprio viveria apenas 16 anos, tempo suficiente para testemunhar a corrupção moral da corte inglesa, tão bem enfatizada em O príncipe e o mendigo. Depois de Jane Seymor, Henrique VIII ainda desposaria mais três mulheres, de um total de seis casamentos, sendo que a quinta, Carolina Howard, também foi executada sob a alegação de infidelidade.

Abaixo, as estrofes que narram o nascimento do príncipe Eduardo e do mendigo Tom com os contrastes bem evidenciados:

A cidade festejara
A chegada desse infante.
A pátria lhe desejava
Um futuro radiante.
Porém o cruel destino
Reservou-lhe um desatino
Alguns anos mais pra diante.

Um pouco dali distante
Uma outra vida surgia,
Exatamente à mesma hora
Desse glorioso dia.
Em condição diferente
Numa miséria latente
Outra criança nascia.

A espantosa semelhança entre os meninos é ressaltada neste ponto da narrativa, numa cena que é essencial para o desenrolar do romance:

Foram ao espelho pra olhar
Como é que tinham ficado.
Ficaram ambos atônitos
Percebendo o resultado.
Em tudo eles eram iguais
Que o rei seria incapaz
De apontar o filho amado.

Paiva Neves, com brilho próprio, atualiza a obra-prima de Mark Twain, num romance de cordel que, igualmente ao texto que lhe serve de base, emociona, diverte e faz pensar.

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