CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

sábado, 30 de abril de 2011

A HISTÓRIA DA ONÇA TAPUIA E O HOMEM DESTEMIDO

Fonte: Jornal da Besta Fubana

Autor: Minelvino Francisco Silva

O homem deve ser homem
Que demonstre seu valor
Cumprindo assim uma lei
De nosso pai Criador
Que dele fez rei das feras
De todas superior

Eu agora vou contar
Um caso que foi passado
A tempos que longe vão
Quando tudo era atrasado
Quando o solo brasileiro
Não era tão habitado

Tinha grandes travessias
Sem haver um morador
Só se encontrava cobra
E tigre devorador
Havia muito selvagem
Bicho feroz comedor

Nas zona do Maranhão
Antigamente existia
Um riquíssimo fazendeiro
Que outro igual não havia
Tinha uma grande fazenda
Numa grande travessia

Nessa grande travessia
O povo ali não passava
Porque havia uma onça
Que a todos devorava
Quem fosse nesse lugar
Com vida mais não voltava

Ninguém podia matar
Pois a onça era encantada
Era uma cabocla velha
Que em onça foi transformada
Era terror dos terrores
Essa fera endiabrada

Um vaqueiro da fazenda
Foi pra o bosque campear
Essa tal onça tapuia
O pobre pôde agarrar
Engoliu de uma só vez
Que não deu para gostar

Quando foi no outro dia
Sem o vaqueiro chegar
O pobre do fazendeiro
Começou a se vexar
Então chamou seus dois filhos
Para irem procurar

E saíram bem armados
O vaqueiro procurado
Subiram por uma serra
Quando foram descambando
Numa pedreira esquisita
Foram uma velha avistando

A pessoa que matar
Este monstro endiabrado
Trazendo a mão dele aqui
Vai ser bem gratificado
Vinte contos em dinheiro
E uma fazenda de gado

Estes homens pra viagem
Andavam bem preparados
Cada com um bacamarte
Os facões bem afiados
Disseram para a viúva
Nós somos dois denodados

Porque nós nunca achemos
Nada pra nos meter medo
Estamos acostumados
Matar onça no rochedo
Nós vamos ver essa onça
O terror deste degredo

A viúva disse: moços
Não queiram arriscar
Quem passa uma hora desta
Não tem para escapar
As mulheres dos senhores
Como eu vão terminar


Eles disseram: senhora
Pra o homem tudo é perigo
Despediu-se da viúva
Com seu compadre e amigo
Entraram na travessia
Para enfrentar o inimigo

Viajaram esses dois homens
Nessa grande travessia
A viúva da fazenda
Por esta forma dizia
A onça vai devorá-los
Valei-me Virgem Maria

Viajaram a tarde toda
Cinco horas realmente
Zé Pedro disse ao outro
Por ser mais experiente:
Vamos ficar aqui mesmo
Não sigamos mais a frente

Zé Raimundo concordou
Muita lenha ali ajuntaram
Fizeram um grande fogo
Assaram carne e jantaram
Com pouco ouviram um rugido
Que ambos se assustaram

Pois era a onça tapuia
Que vinha pra os atacar
Os dois homens destemidos
Ouvindo a onça esturrar
Botava lenha no fogo
Pra mais a mais clarear

Aí foi caindo a noite
A onça mais se danava
Jogava terra no fogo
Horrivelmente esturrava
Esta doida bicha danada
Cada um assim gritava

Às dez horas mais ou menos
Naquela mata sombria
Zé Pedro disse: compadre
Tenho coragem e energia
Mandou o outro dormir
Ele sozinho garantia

Dizendo pode dormir
Com o coração descansado
De meia-noite em diante
Eu vou dormir um bocado
E o senhor me acorda
Porém precisa muito cuidado

Assim mesmo eles fizeram
José Raimundo deitou
Foi logo se adormecendo
Seu companheiro ficou
Ralhando com aquela fera
Lenha no fogo botou

De dez horas em diante
A onça mais se danava
Jogava terra no fogo
Para ver se apagava
O moço acendia o fogo
De vez em quando gritava:

Está doida bicha danada
O homem gritava, então
Na boca do bacamarte
No gume do meu facão
Não temo onça valente
Nem pantera nem leão

Assim naquela peleja
Duas horas tinha dado
Ele chamou seu compadre
Balançando com cuidado
Para ir acender o fogo
Que ele estava cansado

O outro se acordou
Nessa mesma ocasião
Ele disse: meu compadre
Já dormiu uma porção
Eu vou descansar um pouco
Tenha toda precaução

Está certo meu compadre
Disse ele nessa hora
Levantou acendeu o fogo
E gritou sem ter demora;
Está bêba bicha malvada
Sou eu que cheguei agora

Mas o sono traiçoeiro
Cada vez lhe atacava
Ele ia cochilando
O fogo se abaixava
Pois ele com muito sono
Muito baixinho gritava

Pois aquele pobre homem
Que estava cochilando
O fogo se abaixou
A onça foi encostando
Deu um pulo em cima dele
E logo foi agarrado

José Pedro acordou-se
Com o enorme estampido
Não encontrou seu compadre
Só escutou um rugido
Ele não esmoreceu
Porque era destemido

Zé Pedro dizia consigo:
Como homem de valor
Se não vingar meu compadre
Passo até por traidor
Eu vou matar essa onça
Seja lá aonde for


Quando o dia amanheceu
Ele seguiu no roteiro
Sangue ali, sangue acolá
Subindo serra e outeiro
Na pista daquele monstro
Que matou seu companheiro

Seguiu ele no roteiro
Às 11 horas do dia
Ele avistou uma pedreira
Numa serra que havia
Parecendo uma cidade
Onde a onça residia

O moço se aproximando
Daquela enorme pedreira
Porque ia no encalce
Dessa fera traiçoeira
Eu hoje te arranco a língua
Dizia desta maneira

Ele foi chegando perto
Foi avistando um sobrado
Por obra da natureza
Na mesma pedra formado
Um sobrado encantador
Todo bem organizado

No alpendre do sobrado
Tinha uma velha descansando
Era a tal onça tapuia
O moço foi avistando
Olhou tudo direitinho
Logo foi se preparando

Ele armou o bacamarte
Levou na onça encantada
Quando puxou no gatilho
Deu uma pancada danada
Mas o tiro não saiu
A onça foi despertada

A velha naquela hora
Assim que se despertou
Quando foi vendo o rapaz
Em onça se transformou
Partiu para José Pedro
Ele por ela esperou

Veloz como o pensamento
Ele puxou o facão
Pra lutar com essa ferra
Que parecia um dragão
A fera botou-se a ele
Nessa mesma ocasião

Ele meteu-lhe o facão
Debalde os golpes que dava
Dava golpes desmedidos
Mas o facão não cortava
Nos cabelos dessa fera
O facão se embaraçava

Era uma fera horrorosa
Não se pode comparar
Era toda cabeluda
Jamais podia matar
Quem fosse lutar com ela
Só ia a vida entregar

No grande corpo do monstro
Tinha um lugar arriscoso
Bem na roda do umbigo
Do monstro misterioso
Com qualquer um ferimento
Matava o monstro horroroso

Naquela luta terrível
Mais de uma hora fazia
O homem no pensamento
De vez em quando dizia:
Valei-me meu bom Jesus
Filho da Virgem Maria

No meio da grande luta
A onça se arrepiou
O umbigo dessa fera
Logo o homem observou
Deu um golpe tão certeiro
Que a fera no chão tombou

Conheceu bicha malvada
Disse o moço jubiloso
Que o homem tem a força
Dada pelo Poderoso
Pra ser rei de todas as feras
Por isso eu digo orgulhoso


Dinheiro naquela gruta
Tinha abundantemente
Dos que ela devorava
De toda classe de gente
Ele logo encheu um saco
De dinheiro urgentemente

Tirou uma mão da onça
Isso sem haver demora
Pra fazenda da viúva
Viajou naquela hora
Disse: eu vou dar de presente
Àquela digna senhora

Ele chegou na fazenda
Quando a viúva o avistou
Disse: com toda certeza
O outro a onça matou
O moço chegou pra perto
E toda história contou

Ele entregou a viúva
A mão de onça encantada
Dizendo: Ela comeu
Meu compadre e camarada
Mas ela não come outro
Porque matei a malvada

A viúva de contente
Soltou foguete no ar
Apanhou 50 contos
Ao moço veio entregar
Ele disse: não senhora
Eu tenho com que passar

Com um saco de dinheiro
Dum tamanho demasiado
Ele ia conduzindo
Que na gruta foi achado
Despediu-se da viúva
Mostrando ser educado

Foi uma grande alegria
Quando ele em casa chegou
A mulher de Zé Raimundo
Por ele lhe perguntou
Zé Pedro lhe respondeu:
Uma fera o devorou

Com esta notícia ela
Chorava para se acabar
Zé Pedro disse: comadre
Nós temos com que passar
E foi buscar o dinheiro
Para a comadre entregar

Com muitas notas de contos
José Pedro ali chegou
Entregou sua comadre
E toda história contou
Passando um pano nos olhos
O choro se acabou

Quando foi vendo o dinheiro
A mulher do Zé Raimundo
Que estava se lastimando
Num sofrimento profundo
Foi recebendo o dinheiro
Alegrou-se num segundo

É ditado dos antigos
Que acho muito engraçado
Que dinheiro faz sorrir
O defunto amortalhado
Mesmo dentro do caixão
Se mexe pra todo lado

Zé Pedro com a família
Foi então negociar
Toda essa sua riqueza
Foi cada vez aumentar
E sempre multiplicando
Pra nunca mais se acabar


A mulher de Zé Raimundo
Que ficou em viuvez
Por ter bastante dinheiro
Casou-se com um burguês
Projetaram o casamento
Casaram no fim do mês

Este livro tem dois V
Um V vai, outro V vem
O certo é quem o comprar
Não emprestar a ninguém
Diga que seu Minelvino
Lá da feira ainda tem.

Imagem: imotion.com.br

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