CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Literatura de Cordel - As proezas de João Grilo

 

João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pelas artes que fazia.

[...]

João Grilo chegou na corte
Cumprimentou o sultão
Disse: pronto, senhor rei
(deu-lhe um aperto de mão)
Com calma e maneira doce
O sultão admirou-se
Da sua disposição.

[...]

- Eu tenho doze perguntas
Pra você me responder
No prazo de quinze dias
Escuta o que eu vou dizer
Veja lá como se arruma
É bastante faltar uma
Está condenado a morrer

[...]

O rei achou muita graça
Nada teve o que fazer
João Grilo ficou na corte
Com regozijo e prazer
Gozando um bom paladar
Foi comer sem trabalhar
Desta data até morrer.

E todas as questões do reino
Era João que deslindava
Qualquer pergunta difícil
Ele sempre decifrava
Julgamentos delicados
Problemas muito enrascados
O João Grilo desmanchava.

Certa vez chegou na corte
Um mendigo esfarrapado
Com uma mochila nas costas
Dois guardas de cada lado
Seu rosto cheio de mágoa
Os olhos vertendo água
Fazia pena o coitado.

Junto dele estava um duque
Que veio o denunciar
Dizendo que o mendigo
Na prisão ia morar
Por não pagar a despesa
Que fizera por afoiteza
Sem ninguém lhe convidar.

João Grilo disse ao mendigo:
E como é, pobretão
Que se faz uma despesa
Sem ter no bolso um tostão?
Me conte todo o passado
Depois de ter-lhe escutado
Lhe darei razão ou não.

Disse o mendigo: sou pobre
E fui pedir uma esmola
Na casa do senhor duque
E levei minha sacola
Quando cheguei na cozinha
Vi cozinhando galinha
Numa grande caçarola.

[...]

- O cozinheiro zangou-se
Chamou logo seu senhor
Dizendo que eu roubara
Da comida seu sabor
Só por eu ter colocado
Um taco de pão mirrado
Aproveitando o vapor.

[...]

João Grilo disse: está bom
Não precisa mais falar;
Então pergunto ao duque:
Quanto o homem vai pagar?
- Cinco coroas de prata
Ou paga ou vai pra chibata
Não lhe deve perdoar.

João Grilo tirou do bolso
A importância cobrada
Na mochila do mendigo
Ela foi depositada
E disse para o mendigo:
Balance a mochila, amigo
Pro duque ouvir a zoada.

O mendigo sem demora
Fez como o Grilo mandou
Pegou sua mochilinha
Com a prata e balançou
Sem compreender o truque
Bem no ouvido do duque
O dinheiro tilintou.

Disse o duque enfurecido:
Mas não recebi o meu;
Diz o Grilo: sim senhor
E foi isto o que valeu
Deixe de ser caloteiro
O tinido do dinheiro
O senhor já recebeu.

- Você diz que o mendigo
Por ter provado o vapor
Foi o mesmo que ter comido
Seu manjar e seu sabor
Pois também é verdadeiro
Que o tinir do dinheiro
Representa seu valor.

[...]

João Ferreira de Lima

O que li

            João Grilo é um personagem já muito conhecido do público brasileiro, notadamente depois da exibição de "O Auto da Compadecida", filme produzido no final da década de 1990 pela Globo Filmes, sob a responsabilidade do diretor Guel Arraes. Baseado na obra homônima produzida para o teatro, em 1955, pelo escritor paraibano Ariano Suassuna, "O Auto da Compadecida" o apresentou como personagem central sob a interpretação (perfeita) do ator Matheus Nachtergaele.

          As histórias de João Grilo, entretanto, datam de longas e longas datas passadas. Nascido na Europa, como personagem da literatura portuguesa, tão logo chegou ao Brasil foi adotado pela Literatura de Cordel, que tratou de livrá-lo do "ar tolo verificado nas obras d'além mar" e de transformá-lo num nordestino cheio de astúcia e muita inteligência.

          Na década de 1920 o poeta pernambucano João Ferreira de Lima, que nasceu em São José do Egito no dia 3 de novembro de 1902 e morreu em 19 de agosto de 1972, contou as aventuras do personagem em 31 sextilhas, distribuídas em oito páginas do folheto intitulado "As palhaçadas de João Grilo". Anos depois, no final da década de 1940, a obra foi ampliada para 32 páginas, na tipografia de João Martins de Athayde, pelo poeta Delmarme Monteiro, que acrescentou 95 septilhas (estrofes de sete linhas) ao texto original, que também passou a ser denominado "As proezas de João Grilo".

           Os trechos hoje destacados neste nosso "Cantinho de Cultura" da época do São João 2010 se constituem numa síntese da obra, a qual pode ser facilmente encontrada no comércio literário presente nas livrarias, sebos culturais, bancas de revista, Universidades, etc.

         De autoria de João Ferreira de Lima, além de "As proezas de João Grilo", destacam-se também "Romance de Mariquinha e José de Sousa Leão", "O Pinto Pelado", "Casamento de Chico Tingole com Maria Fumaça", "Dois glosadores - Azulão e Borborema", "O Marco Pernambucano", "O Pranto de Jovelina, a Criança que morreu numa furna medonha", "Sermão Profético do Padre Cícero Romão", "Peleja de João de Lima e Lino Pedra Azul" e "Peleja de João de Lima e João Athayde".

Grygena Targino

Fonte: auniao.pb.gov.br

Imagem: davieverton.multiply.com

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