CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

sábado, 19 de março de 2011

O Soldado que foi para o Céu


Capa da edição portuguesa do folheto de cordel João Soldado (em prosa)

 

Por Marco Haurélio


         Ia uma vez um soldado para casa com baixa; quando ao passar por uma ponte encontrou um pobre de pedir, que não tinha dinheiro para pagar a passagem e estava ali parado. Ora o soldado nunca tinha feito bem a ninguém; mas naquele instante teve pena do velhinho e carregou com ele às costas e passou a ponte. O soldado não pagou nada porque ia às costas do soldado. Logo que chegou ao outro lado, pôs o velho no chão, e ia despedir-se dele, quando o pobre lhe disse:
Camarada, peça alguma coisa, que o que eu quero é agradecer-lhe.
          Ora o que lhe hei-de eu pedir?
          Peça tudo o que quiser.
          O soldado pediu: Que todas as vezes que disser: "Salta aqui à minha mochilinha!" nenhuma coisa deixe de obedecer à minha ordem. E que onde quer que eu assente ninguém me possa mandar levantar
          O velho disse-lhe que estava concedido. Foi-se o soldado muito contente para casa e nunca mais trabalhou, e viveu bem, sem lhe faltar nada. Se queria pão, carne, vinho, dinheiro, dizia: "Salta aqui à minha mochilinha", e tinha logo tudo o que era preciso. Veio o tempo e o soldado estava para morrer; os Diabos vieram logo para lhe levarem a alma, mas o soldado viu-os e gritou: "Saltem aqui já à minha mochilinha!". Os Diabos não tiveram remédio senão obedecer; ele assim que os apanhou dentro da mochila mandou-a a casa do ferreiro para que lhe malhasse em cima até os deixar em estilhas. Por fim o soldado morreu, e como tinha passado sempre na má vida, foi parar ao Inferno. Os Diabos assim que o lá viram começaram a gritar:
Fecha portas e postigos, senão seremos aqui todos batidos.
          E aferrolharam as portas, e o soldado não pôde entrar para lá; foi então bater ás portas do Céu. São Pedro assim que o viu, disse-lhe:
          Vens enganado! Não entras cá. Não te lembras da má vida que levaste?
          Responde-lhe o soldado:
         Ó Senhor São Pedro! no Inferno não me quiseram. Eu agora para onde hei-de ir?
         Arranja-te lá como puderes.
          O soldado viu meia porta do Céu aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:
          Ó Senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o barrete.
         O soldado viu meia porta do Céu aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:
          Ó Senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o barrete.
São Pedro deixou; mas o soldado assim que o viu dentro do portal, sentou-se logo na cadeira dele. São Pedro quis mandá-lo sair mas não pôde e foi dali à pressa queixar-se a Nosso Senhor, que lhe disse:
           Deixa-o entrar Pedro, não tens outro remédio, porque assim lhe estava prometido.
         E o soldado sempre ficou no Céu.

BRAGA, Teófilo, (...), Contos tradicionais do Povo Português I
NOTA: O conto do soldado que recebe o dom de prender qualquer coisa em seu bornal frequenta, além das páginas do cordel, a literatura folclórica de vários países. No Brasil é famosa a versão poética de Antônio Teodoro dos Santos

Fonte: Blog Cordel Atemporal: marcohaurelio.blogspot.com

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