CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cultura Popular de luto: Morre o cordelista Zé Saldanha

Fonte: Blog do Oliveira: www.oliveirawanderley.com.br

Cordelista Zé Saldanha morreu hoje aos 93 anos 

Morreu no início da tarde desta terça-feira(9), aos 93 anos de, José Saldanha Menezes Sobrinho, ou simplesmente Zé Saldanha, como gostava  de ser chamado.

Zé Saldanha era o cordelista mais velho em atividade no Rio Grande do Norte e um dos poucos da sua idade exercendo a Literatura de Cordel no Brasil.

Nascido e criado na Fazenda Piató, em Santana dos Matos, mudou-se várias vezes de casa com a família até fixar residência em Natal, mas nunca deixou de ser um matuto sertanejo, ligado as suas raízes.

Zé Saldanha deixou mais de 200 livretos de cordel, livros em prosa, e era um dos únicos cordelistas que ainda mantinha a tradição de publicar anualmente almanaques (livretos onde o cordelista faz previsões sobre o tempo, fornece orientações e informações agrícolas, folclóricas e religiosas baseadas no senso comum), tendo sido citado em inúmeras antologias de cordel.

Zé Saldanha era também o único representante do Rio Grande do Norte na conceituada coleção “Projeto Biblioteca de Cordel”, coordenada pelo escritor Joseph Luyten, da editora paulista Hedra.

O Repórter das Rimas

Zé Saldanha contava que resolveu montar uma sapataria e empregou muita gente. Nesta sapataria, o poeta colocou seu sobrenome, “Calçados Menezes” e dentro das caixas de sapatos, Zé Saldanha colocava uma propaganda que dizia: “Para comprar calçados eu aviso aos meus fregueses/ eu ando de pé descalço, semanas, dias e meses./ Fico até de pé rachado, porém só compro calçados, dentro da fábrica Menezes”.

Zé Saldanha usava seus versos porque naquele tempo não tinha televisão e poucos possuíam um rádio.

Sua reportagem em poesia mais famosa foi a partir de um acidente em Currais Novos, que vitimou 25 pessoas na região.

O acidente aconteceu pela manhã e, à tarde, num local onde não havia nenhum meio de comunicação, Zé Saldanha já tinha um folheto pronto chamado “A verdadeira história do monstruoso acidente em Currais Novos”, contando toda a verdade sobre o acidente. Na época, mais de quatro mil exemplares do cordel foram vendidos.

Além de poeta cordelista, Zé Saldanha criou a Associação Estadual dos Poetas Populares do Rio Grande do Norte (AEPP), em 1975, agregando repentistas, emboladores de coco, aboiadores, glosadores e poetas de cordel, entre outros artistas.

Além disso, em 1979, travou batalha junto ao Ministério do Trabalho pelo reconhecimento da profissão de poeta popular, visando a conquista de direitos trabalhistas para a categoria. Em 1993, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira dos Estudos do Cangaço (SBEC) e, atualmente, era membro da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN.

Confira um dos poemas de Zé Saldanha:

Matuto no Carnavá
Matuto é matuto mesmo
É matuto de verdade.
Que diabo qu’é matuto
Se enfiando na cidade?
Brincando inté carnavá!
Eu brinquei mas me dei má,
Num conto nem a metade!
(...)
Ela perguntou baixinho:

Você tem algum dinheiro?
Eu disse: Tenho, pru quê?
Ela respondeu ligeiro:
Então me dê preu guardá,
Prus ladrão não lhe robá,
Que aqui só tem marreteiro.
Foi pegando meu dinheiro,

E tratando de correr.
Como quem ia guardá,
Mas se virou prá dizer:
“Qué qui pensa matutão?
Eu num sou Maria não.
Sou Machão qui nem você!”

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