CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

domingo, 4 de setembro de 2011

Tirando de letra

De Alexandre Dumas a Guimarães Rosa, a novela 'Cordel Encantado' faz bom uso das melhores e mais distintas fontes literárias

Por Patrícia Villalba

Nathalia Dill está no elenco da atual novela das seis - DivulgaçãoRIO - Nome de novela não é coisa que se leve tão a sério, porque nem sempre explica o que é desenvolvido nos capítulos do dia a dia. Mas, a 20 dias do fim de Cordel Encantado, as autoras Duca Rachid e Thelma Guedes não deixam dúvida de que a literatura de cordel fez mais do que emprestar o título para a novela das 6, que termina no dia 24 com sucesso de público, crítica e a admiração até de quem despreza o gênero.

 

Os folhetos impressos que começaram a circular no País no século 19, à moda da adaptação em versos das histórias orais medievais feitas na Europa durante o Renascimento, deram o tom da novela. E como autênticas cordelistas, as autoras trataram de abarcar todo tipo de referência literária, inclusive seguindo a tradição dos mestres de misturar lendas europeias com a mais pura cultura nordestina. "De fato, o cordel foi uma espécie de ‘norte’ para a gente - não só no enredo, mas na construção da narrativa", explica Duca ao Estado. "O ponto de partida foi a história da princesa europeia perdida no sertão do Brasil. São dois universos muito diferentes que, no entanto, convivem há muito tempo nos cordéis nordestinos."

Tropicalismo. O resultado, bela colcha de retalhos emoldurada pela fotografia de cinema da diretora Amora Mautner, pode também ser definido como um álbum de figurinhas de uma "biblioteca básica". A quem interessar possa, Cordel Encantado cita Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna. Nossos autores se encontram com os contos de fadas e os "tesouros da juventude", como Os Três Mosqueteiros e O Homem da Máscara de Ferro. "Nós somos, de certa forma, ‘filhas’ dos tropicalistas. Aprendemos com eles a fazer essa mistura", anota Duca.

Filha de migrantes pernambucanos que se estabeleceram no Rio, Thelma repete na novela o que fazia na infância. "Meu pai me levava à Feira de São Cristóvão para comprar produtos nordestinos, como rapadura, farinha e... os tais livretos de cordel, que eu amava. Eu lia esses livretos da mesma maneira que lia Monteiro Lobato, os contos de fadas do Mundo da Criança, os resumos das peças de Shakespeare que havia no Tesouro da Juventude", conta a autora. "Não tinha consciência da diferença entre essas leituras. Misturava tudo no mesmo saco! E que saco maravilhoso, não é?"

É, sim. Agora, a mistura começa nas páginas de ficção e pula para os volumes de História. Nos romances, há correspondentes para a linda e perigosa Úrsula (Débora Bloch), que tem parentesco com a Marquesa de Merteuil, de Ligações Perigosas. Herdeiro do rei do cangaço, Jesuíno (Cauã Reymond), veja só, é um perfeito Robin Hood. E Setembrino (Glicério Rosário) vai conquistar um amor por causa dos versos que assina com pseudônimo, como faria Cyrano de Bergerac.

A mera semelhança com a vida real não é coincidência no caso do Rei Augusto (Carmo Della Vecchia) que, apresentado como um monarca de espírito aventureiro, ficou a cara de d. Pedro I desde que desembarcou em Brogodó. Da mesma forma, Herculano (Domingos Montagner) e Miguézim (Matheus Nachtergaele) - não vê quem não quer - são os próprios Lampião e Antonio Conselheiro.

Nicolau (Luiz Fernando Guimarães) é feito no molde do clássico mordomo palaciano, com um tempero contemporâneo: como o secretário pessoal de Lady Di, ele lançou uma biografia não-autorizada da princesa Aurora (Bianca Bin). A destemida jornalista Penélope (Paula Burlamaqui) e seu empenho por uma reportagem sobre Herculano é uma homenagem das autoras ao fotógrafo Benjamim Abrahão Botto, que registrou imagens de Lampião nos anos 20. Quem viu a novela não perdeu a piada: o filme de Penélope acaba por revelar ao estrelato a figura de Belarmino (João Miguel), cangaceiro mestre em disfarces e metrossexual da caatinga.

Felipe (Jayme Matarazzo) tem o mesmo nome do príncipe encantado de A Bela Adormecida mas, tão melancólico e romântico, está mais para um Charles Baudelaire. E como a Aurora dos contos de fadas, a Aurora da novela ficou anos e anos afastada de sua família real - a diferença é que a primeira dormiu, enquanto a segunda preferiu se esbaldar no forró de Brogodó. O ímpeto da mocinha arretada, cujo sotaque acentua o temperamento explosivo, e o carisma do "Robin Hood" do sertão Jesuíno fazem toda a diferença: não se trata de um casal de mocinhos comum, daqueles cujas cenas românticas provocam enjoos na audiência, mas de dois heróis para se gostar.

Páreo para Aurora, só mesmo uma Doralice (Nathália Dill) da vida. A antagonista, que luta pelo amor de Jesuíno, tem a composição mais interessante da trama e, por isso, está longe de ser rejeitada pelos que torcem pela mocinha. Filha do prefeito e letrada, em certo ponto da história ela chegou a se disfarçar de homem para ingressar no bando de justiceiros chefiados por Jesuíno - por amor e idealismo. Lembrou Bruna Lombardi, claro, em Grande Sertão: Veredas. "Ali, usamos o mito da donzela guerreira que, na verdade, serviu como inspiração ao Guimarães Rosa para compor sua Diadorim, e as histórias de Joana D’arc", explica Duca, citando ainda Anita Garibaldi, a quem Doralice evoca na etapa atual da trama, quando luta de cara limpa contra a tirania de Timóteo (Bruno Gagliasso).

Personagens fortes em ambiente de encantamento parecem perfeitos para a alta dose de romantismo fluir, como uma verdadeira história de capa e espada. Mas esse crédito as autoras fazem questão de chamar para si. "Tenho que confessar que Duca e eu somos muito românticas. Não importa se a novela seja contemporânea e com uma pegada mais realista. Ainda assim, nossos casais serão sempre muito românticos. Porque nós somos assim!"

Fonte: Jornal Estadão: www.estadao.com.br

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