CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Cordel na era da preservação web

Por Michele Marques Batista
A literatura de cordel produzida em sites e blogs está sendo arquivada pela Biblioteca do Congresso Americano, Library of Congress (LC na sigla em inglês) desde 2011. O projeto tem 24 sites coletados e arquivados. Parece pouco, mas é um dos primeiros trabalhos de arquivamento web realizado com material produzido no Brasil. O material está armazenado em servidores fora do País e, por enquanto, não está acessível para pesquisa online.

O projeto de arquivamento web de cordéis, que é desenvolvido dentro de uma parceria entre a  LC e especialistas em cordel, nasceu como um desdobramento do projeto de preservação e digitalização de cordéis já realizado pela instituição americana. A LC possuiu uma das mais extensas coleções de literatura de cordel, e só perde em tamanho para algumas coleções de instituições brasileiras, como a da Biblioteca Átila Almeida. A biblioteca, que pertence à Universidade Estadual da Paraíba, possui 10.021 títulos e 15.967 exemplares sobre o tema.
Hoje, além das coleções físicas e digitalizadas de cordéis, a LC também tem armazenadas 24 sites/URLs de blogs e sites de cordel. E a diretora do Escritório da Biblioteca do Congresso Americano no Rio de Janeiro (LCRio), Debra Mckern,  não gostaria de parar nos cordéis; “seria maravilhoso ter mais instituições brasileiras envolvidas nesses projetos e mais projetos de esforços cooperativos para estreitar relações com essas instituições“. E revela, “eu, por exemplo, adoraria realizar um projeto sobre a cultura afro-brasileira”.
Mckern conversou com o Estadão Acervo sobre o projeto dos cordéis e sobre os desafios de se preservar materiais “nascidos digitais”.

Galeria de Cordeis da Biblioteca do Congresso Americano
Procurando formas de lidar com o desafio de preservar conteúdos da web – potenciais fontes históricas, documentais e artística que vem sendo produzidas na rede – a LC é membro do Consórcio Internacional de Preservação da Internet, (IIPC na sigla em inglês) e tem sido uma das instituições internacionais mais ativas na área de preservação web. Mantém diversos projetos na área. O projeto de arquivamento web de cordéis é um deles. Como os demais, o projeto também surgiu da necessidade de incluir material digital nas coleções de fontes primárias originalmente físicas. Mackern conta que percebeu que, no caso da coleção de cordéis, a digitalização do material físico não era mais suficiente para manter essa base documental atualizada, “nos dias de hoje, nessa era digital, uma parte importante desta arte já é digital”, explica.
Foi com base no primiero projeto de arquivamento web que realizou com material brasileiro que  Mackern desenvolveu o projeto dos cordéis. Esse primeiro projeto foi realizado em 2010, quando a LCRio arquivou 46 sites/URls sobre as eleições presidenciais no País. Sobre essa experiência, Mackern ressaltou a importância de se preservar essas fontes, “se um candidato assume uma posição numa semana, mas na próxima semana muda de posição, esse conteúdo seria removido do seu site. Mas com o arquivamento web esse documento contendo sua posição inicial é preservado. Algo muito importante quando se trata de preservar o conteúdo das eleições“. Também falou sobre sobre aspectos práticos que levaram a LCRio a escolher as eleições de 2010 para ser seu primeiro projeto de arquivamento web, como o fato desse material não ter reservas de copyrigth, “são partidos políticos promovendo seus candidatos , não há lei de “privacidade”“, e de ser um trabalho com uma baliza temporal objetiva, “há um início e um fim“.
Arquivamento web de cordéis.
Iniciado em dezembro de 2011, o projeto de arquivamento web de cordéis é um processo de captura de URLs, de blogs e sites de cordelistas para arquivamento, explica Debra. Esse procedimento, conhecido como crawl [em inglês coleta], é feito “umas duas vezes ao ano”, porque nos casos de cordéis digitais “o conteúdo não é tão grande”.
Colaboração e tecnologia. O diferencial deste projeto é que ele conta com a parceria de pesquisadores e especialistas em cordel. Na maioria dos casos os projetos de Arquivamento Web da LC são executados integralmente por membros da equipe da biblioteca. A  colaboração é parte vital para o desenvolvimento do projeto. São esses profissionais que submetem ao Escritório da Biblioteca do Congresso Americano no Rio os formulários com os sites candidatos à coleta. Além de detalhes como o contato do proprietário do site, esses formulários trazem em suas especificações a justificativa para inclusão na coleção da LC e a frequência recomendada para a captura desse material online. Após analisar essas informações os membros da LC determinam quais sites serão selecionados para captura e os programam no DigiBoard, um software desenvolvida  para gerenciar coleções de arquivos da web. A ferramenta atua na área de seleção e permissões. Também ajuda a equipe de curadoria na seleção de sites para arquivamento, análise de qualidade das URLs, além de facilitar o gerenciamento de permissões legais para a captura de sites.

Organograma do funcionamento do DigiBoard
Direitos autorais. O DigiBoard envia uma mensagem de e-mail automática informando a qualidade dos sites previamente selecionados para a coleta. É nesse momento que entra a a professora Manuela Maia, diretora da Biblioteca Central da Universidade da Paraíba (UEPB) e colaboradora no projeto de arquivamento web de cordéis. Ela conta que, além de averiguar se os sites dos cordelistas estão dentro dos “critérios de qualidade para arquivamento”, cabe a ela também fazer o contato com alguns desses artistas para “pedir suas permissões, para que a Biblioteca do Congresso Americano possa realizar esse arquivamento”. Manuela destacou a preocupação da instituição americana com as leis de direito autoral e seu empenho em obter e formalizar esse arquivamento através das autorizações, “sempre há a autorização legal, conforme as leis americans exigem”.
Expansão. O processo para que o arquivamento seja feito da forma correta pode ser trabalhoso. Há o problema de espaço, que faz com que ainda não seja possível disponibilizar o acesso às URLs e ao material coletado nos sites e blogs. Mackern diz que o projeto pretende tornar disponível esse conteúdo. Mas, enquanto não consegue espaço, o projeto segue guiado por uma premissa: “a posição agora é mais ou menos essa: se você está preocupado em perder algo caso não realize o processo de captura (crawl) desse conteúdo, você execute a captura. Mais tarde, pensaremos num meio de tornar isso acessível.








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