CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Artes diversas encontram-se no resgate do cordel

Fonte: diariodonordeste.globo.com

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Artista plástica, Amanda Senna, decidiu fundir as múltiplas linguagens da arte, como mamulengos e teatro de sombras, junto com o cordel e a xilogravura
FOTOS: ELIZÂNGELA SANTOS

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A Gráfica lira Nordestina ainda abriga o velho maquinário antigo e recebe constantemente pesquisadores de todo o País
FOTOS: ELIZÂNGELA SANTOS

A Lira Nordestina, seleiro de cordelistas, agora é palco de bonequeiros e artistas que dão vida aos cordéis

            Juazeiro do Norte. As múltiplas linguagens da literatura de cordel e da xilogravura entrelaçadas com os mamulengos e o teatro de sombras. Um casamento que tem dado certo com pesquisadoras que buscaram diálogo entre estas artes para desenvolver o Projeto Movimento e Voz em Cordel. O trabalho não poderia ser realizado em terreno mais fértil: a Lira Nordestina, nesta cidade, celeiro dos grandes poetas populares, desde meados dos anos 20 do século passado. Entre eles, o que deu o nome a Lira, o poeta Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré. Serão três meses para concluir o projeto, em execução, agora, com os cursos de teatro de sombras e mamulengos para os dez participantes.
A velha Tipografia Silva, criada por José Bernardo da Silva, ainda hoje resiste e oferece condições de inspiração para novos projetos. O grande desafio da pesquisadora e idealizadora, Amanda Senna, que também é artista plástica, foi fundir as artes. O trabalho envolve a música, dramaturgia, artes plásticas, a dança e a escrita. Essa fusão dentro de uma dinâmica estética, proporciona um diálogo permanente, revelando a riqueza da literatura popular.
Ela veio do Estado de Pernambuco. Tem no mamulengo uma inspiração particular, de casa mesmo. No Rio de Janeiro teve contato com o grupo Carroças e Mamulengos, formado por artistas de Juazeiro que circulam o País com o teatro de bonecos. Desse ponto, ficou bem perto de chegar a Juazeiro. E veio à terra do Padre Cícero, onde conheceu e se identificou com a Lira Nordestina e os cordéis.
           Mas o que proporcionou o desenvolvimento do trabalho foi por a Lira ser, desde 2005, um Ponto de Cultura, do Ministério da Cultura. O Projeto Movimento e Voz em Cordel segue essa trajetória de diálogo permanente com a estética da xilo e do cordel. "Estava envolvida com os bonecos no Rio de Janeiro e tive a oportunidade de fazer a escolha do lugar para desenvolver o trabalho", diz ela, ao optar por Juazeiro e poder ter a oportunidade de realizar o seu projeto de residência artística e interação estética em um Ponto de Cultura.
           Entre os alunos do curso estão professores, crianças, artistas. O grupo é diferenciado, mas o processo de aprendizado e ensino também tem sido motivador, segundo a dançarina e atriz, Juliana Falcão, que faz parte do grupo, e também conta com a colaboração do estudante de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Pernambuco, Pedro Moura. Ele é o produtor, um faz de tudo, como ele mesmo se denomina, com cuidados desde o acompanhamento do blog à elaboração de material.
A fase inicial de pesquisa e familiaridade com o velho maquinário da Lira, instituição atualmente com coordenação da professora Anna Christina Carvalho, começou em fevereiro deste ano. A primeira fase teve início com a pesquisa em cordel e conhecimento do Ponto de Cultura.
          O segundo passo reunir o grupo de alunos para vivenciar a nova linguagem. As pesquisadoras foram em mais de 60 salas de aula do Município, no intuito de tentar reunir alunos para participar do cursos de teatro de sombras e mamulengos por três meses. Não deu para esperar a decisão dos meninos. Então ficou um grupo misto, inclusive com alunos do Curso de Artes Visuais e Teatro da Urca.
           O terceiro passo veio com as vivências, que serão finalizadas com o grande espetáculo, no qual as pesquisadores pretendem fazer uma homenagem aos 100 anos de Juazeiro, com apresentação em praça pública.
           O projeto tem o reconhecimento da Fundação Nacional da Arte (Funarte), Secretaria da Cidadania e Ministério da Cultura, por meio do Governo Federal, que são os órgãos fomentadores e financiadores dos trabalhos. As oficinas foram iniciadas no mês de abril.
          As histórias dos cordéis, escolhidas pelos próprios alunos, estão sendo utilizadas nas construções dramáticas. Histórias poéticas, no tom das rimas, mas com falas bem ensaiadas, voz e corpo trabalhados.
           "Eles (os alunos) estão gostando muito desse trabalho, achando diferente e interessante com o que tem aqui", diz Juliana Falcão. A aluna Bárbara Leite diz que sua experiência tem sido interessante. "Isso tudo pode resultar numa construção diferenciada", prevê.
           Iniciativa
"Acho importante essa junção. Os alunos estão gostando muito, achando diferente e interessante"
Juliana Falcão, atriz e dançarina.

MAIS INFORMAÇÕES
Gráfica Lira Nordestina

Avenida Castelo Branco, 150
Romeirão - Juazeiro do Norte (CE)
Telefone: (88) 3102.1150

HISTÓRIA
Apesar de danificada, Lira Nordestina inspira autores

As histórias da Lira Nordestina e da Literatura de Cordel no Brasil se confundem e são pura rima

           Juazeiro do Norte. Os versos populares e o traçado das xilogravuras são para um dos maiores nomes da xilo e do cordel, o artista Stênio Diniz, a linguagem universal brasileira. Essa ampla e rica abertura que o cordel permite, diz Stênio, é o reconhecimento das raízes populares e a valorização das múltiplas utilidades do cordel. Ele cita a função social e a riqueza artística como marcas próprias, demonstrando o encanto da literatura dos folhetos.
           Para Amanda, a xilogravura oferece a possibilidade de inspiração plástica, dentro de uma visão estética. No cordel está a dramaturgia, com propriedades distintas para dar vida e movimento aos bonecos. A artista plástica reconhece o potencial da Lira Nordestina, que está ligada à Universidade Regional do Cariri (Urca), por meio de Pró-reitoria de Extensão, por ter ainda muito o que oferecer. Mas a maior parte do acervo de cordéis que vem sendo pesquisado é por meio do Projeto Sesc Cordel, que reúne uma coleção considerável dos folhetos. Mesmo com toda a história da Lira, o acervo da gráfica está danificado e sem diversidade. Grande parte dele, segundo Amanda, não se encontra mais no local.
           A Lira dos poetas populares ainda inspira pesquisadores na atualidade. A importância histórica da gráfica faz com que o próprio local onde estão guardados os maquinários e os móveis antigos se destaque, com o nostálgico romantismo das rimas.
           Para Amanda, é um espaço raro, onde os estudantes estão recebendo inclusive noções de utilização de algumas das máquinas para produzirem o material do curso. Como não poderia ser diferente, o próprio local serve de inspiração para as rimas ensaiadas, no ritmo dramático e nas sombras da tela de pano dos alunos.

Histórico

          A história da Lira Nordestina se confunde com a história da Literatura de Cordel no Brasil. Começou com o romeiro alagoano José Bernardo da Silva, que em 1926 se dirigiu para Juazeiro do Norte. Foi direto pedir a bênção ao "Padim". Em seguida, iniciou suas atividades. Em 1932, adquiriu as máquinas tipográficas e lançou a Tipografia Silva, que depois passou a ser Tipografia São Francisco. O nome Lira já veio após a sua morte.
           A compra dos direitos de publicação, no fim dos anos 40, dos maiores poetas de cordel do Brasil, Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, foi a realização de um grande sonho para José Bernardo da Silva. A Tipografia São Francisco vive o seu auge, como a mais importante do Brasil. As dificuldades começaram no fim dos anos 60. Em 1988, o Governo do Estado comprou a Tipografia São Francisco, que está sob a coordenação da Urca.
Elizângela Santos
Repórter

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