CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

DO CORDÃO PARA UMA LITERATURA DE CORDEL

Fonte: ANUDI (Associação dos Nordestinos em Uberlândia)


 Por Thaís Medeiros
Barbantes esticados e livretes pendurados dão origem à uma literatura do Nordeste rica em rimas e versos, é o cordel, que ganhou este nome, pois, em Portugal, eram expostos ao povo amarrados em cordões, estendidos em pequenas lojas de mercados populares ou até mesmo nas ruas.
A chegada do cordel no Brasil ocorreu no início da colonização, através dos portugueses. Na segunda metade do século XIX começaram as impressões de folhetos brasileiros, com características próprias do país.
Os temas incluem desde fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas, temas religiosos, entre muitos outros. As façanhas do cangaceiro Lampião (Virgulino Ferreira da Silva, 1900-1938) e o suicídio do presidente Getúlio Vargas (1883-1954) são alguns dos assuntos de cordéis que tiveram maior tiragem no passado. Não há limite para a criação de temas
dos folhetos. Praticamente todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
O estudante de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Cid Carlos, é um dos admiradores da literatura. Para ele, os cordéis multiplicam as histórias tanto na ficção quanto na realidade.
“Existe alguns historiadores que explicam o cordel a partir de um cenário brasileiro, como a guerra de Canudos que propiciou a história sobre Antônio Conselheiro que dá um tom heróico para a cultura nordestina de forma rimada e em versos nos cordéis”, afirmou Cid.
No Nordeste, a literatura de cordel é uma produção típica, sobretudo nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Hoje também se faz presente em outros estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
A Feira da Gente, realizada todo domingo na praça Sérgio Pacheco em Uberlândia, é um dos locais na cidade em que encontra-se cordéis para comprar. Cid Carlos é um dos vendedores e afirma que muitas pessoas tem curiosidade em conhecer a obra literária.
“Públicos acadêmicos conhecem mais os cordéis do que as outras pessoas, porém muitas pessoas se surpreendem com a literatura rimada que pode ser encontrada na feira, na revistaria do aeroporto de Uberlândia e na internet, sendo uma oportunidade do pessoal conhecer um pouco da cultura nordestina através dos cordéis”, concluiu.
Um grande exemplo de cordelista é Seu Lunga, um personagem tão folclórico que ninguém acredita na sua existência real. Mas, ele existe. Natural de Juazeiro do Norte (CE), local aonde reside até hoje, é muito conhecido pela sua "delicadeza", dizem que ele é um sério candidato a Homem Mais Ignorante do Mundo pelo Guiness Book. Algumas histórias são verídicas, e outras são apenas piadas que fazem alusão a sua ignorância. Confira abaixo, um dos cordéis produzido por ele.
As proezas de Seu Lunga
Seu Lunga é cabra de bem
Porém é muito nervoso
Em perguntas idiotas
O homem perde o gozo
Das faculdades mentais
Vira o próprio satanás
Solta um palavrão trevoso.

Um belo carro de luxo
A famosa limosine
Chegou à concessionária
Tava exposta na vitrine
Lunga disse: --eu quero aquela
Dou até minha costela
Por aquela lamborguine.

O vendedor, à socapa,
Riu do momento bizarro
--Meu senhor, está enganado
Trocou o nome do carro
Lunga, bufando de raiva
Encorporou o Saraiva
Não adimitiu o sarro.

--Olhe aqui fi da broboinca
O automóvel é meu
Vou pagar com minha verba
Se entupa, seu fariseu
Dou o nome que eu quero
Joaquim, Chico ou Homero
Também ponho o de Romeu.

Uma semana depois
Lunga, no estacionamento
Foi saindo com o carro
Até passar por tormento
O alarme disparou
A polícia o abordou
Não teve nem argumento.

Era um carro igual ao dele
Não mudava nem a cor
O modelo, a capota
Pneu e radiador
Calota, marcha e breque
Iguais ao seu calhanbeque
Principalmente o motor.

Lunga tomou providência
Ali, no calor da hora
Pra não mais se confundir
Tirou da bota a espora
Riscou toda a pintura
Disse: --olhe que belezura
Quero ver trocar agora.

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