CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Cordelista paraibano Eloi Firmino de Melo

        O poeta Eloi Firmino de Melo é natural de Sapé/PB. Procedente do meio rural, desde cedo habituou-se a ler folhetos de literatura cordel. Com bastante dificuldade fez o curso primário, e o Exame de Admissão só aos l9 anos. Cursou Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Lecionou Língua Portuguesa, Francês e Inglês. Traduziu vários ensaios de Críica Literária de autores americanos. Após a aposentadoria como auditor fiscal, resolveu radicar-se em João Pessoa/PB. Publicou seu livro de poesias "chuvas de uma estação tardia" em setembro de 2007. Tem dois livros de poesia esperando publicação: "Outras Estações" e "Caatinga brava". Gosta de escrever versos na linguagem do Cordel, especialmente pelejas. Seu endereço eletrônico é eloifirminomelo@yahoo.com.br .

Vejamos a seguir um cordel da autoria deste poeta:

LAMPIÃO DANÇA
O XAXADO

Baraúna:
Com veia lírica da boa
Eu vou contar minha história
Do tempo em que fui morar
Na cidade de Vitória;
Lá me aconteceu um fato
Que me fez um candidato
Ao bom pedestal da glória.

É que eu fui dar um passeio
Lá pela periferia
Quando avistei um sujeito
Que de uma moita saía
Com um trabuco na mão,
Vestindo calça e gibão
Em pleno sol de meio dia.

Eu achei muito engraçado
Aquela roupa tão quente
De couro de boi curtido
Debaixo de um sol ardente.
Pensei que fosse um vadio
Por ali sentindo frio
Porque estivesse doente.

Eu disse: moço, tá doido,
Onde encontrou frio assim
Pra se vestir desse jeito?
Coitado será de mim;
Se o frio que o senhor tem
Chegar para mim também
Já sei que será meu fim.

Lampião:
Não me venha com lorota,
Seu cara de fruta-pão!
É bom ir me respeitando
Porque eu sou Lampião.
Eu venho pela caatinga
Com a mão valente que vinga
A injustiça no sertão.

Baraúna:
Com esse chapéu de couro
E esse gibão rasgado?
Esse trabuco vencido
De gatilho enferrujado?
Homem, deixe de parola!
Só não lhe dou uma esmola
Porque meu bolso é furado.

Aí Lampião zangou-se,
Puxou do bolso um apito;
Botou na boca e soprou
Que mais parecia um grito.
Vi tanto cabra saindo
Do mato e se reunindo
Que parecia o Maldito.

Primeiro, mandou um cabra
Que era assim do meu tamanho
Mais sujo do que o porco
Na lama em que toma banho.
Enquanto ele me encarava
Os urubus encostavam
Por causa do cheiro estranho.

A luta demorou pouco
Porque lhe dei um sopapo
O cabra subiu no ar
E foi cair feito um sapo
Com cinco metros distante;
Eu disse: cabra, levante
Antes que lhe sangre o papo.

Aí o chefe escolheu
Outro do seu escalão;
Apliquei-lhe uma rasteira
Deixei o bicho no chão;
Parecia até um rodo
Pois eu derrubava a todos
Os cabras de Lampião.

Lampião:
Chega de tanta moleza!
Que já estou aborrecido;
Eu jamais tinha encontrado
Um homem tão destemido;
Se estiver desempregado,
Já pode ser contratado
Para trabalhar comigo.

Baraúna:
Eu não vou ser contratado
Por nenhum cabra de peia;
Primeiro eu quero botar
Toda corja na cadeia;
Deixar pra sempre acertado,
Que não quero cabra armado
Nos rincões da terra alheia.

Lampião:
Mas pra isso, Seu Cabrinha,
Tem que montar no meu ombro;
Não tenho medo da morte
E nunca vi mal-assombro;
Sujeito do seu quilate,
Quando o meu chicote bate,
Deixa buracos no lombo.

Baraúna:
Você está muito enganado
Ao pisar na minha terra;
Devia nem ter saído
Da loca escura da serra;
Aqui quando o cancão pia
Nego perde a luz do dia,
Que bom cabrito não berra.

Narrador:
Nisso partiram pra briga
Ligeiros que só um gato;
O cangaceiro pulando
As moitas verdes do mato;
Mas quando ele se abaixava
Baraúna o acertava
Com a sola do seu sapato.

A poeira ia cobrindo
E a terra ficando escura;
Baraúna disse: agüente
Que aqui a parada é dura!
E o sol talvez com medo
Nesse dia se pôs cedo
Por causa dessa bravura.

Desceram ladeira abaixo
Pela mata de jurema;
O corpo todo furado,
Feito tela de urupema;
Pois ele tinha o gibão,
Baraúna pelo chão
Minorava o seu problema.

Baraúna:
Chegando à beira do açude,
Eu me vi aperreado;
O cangaceiro com sorte
Me deixou encurralado;
Agora, cabra, me deixe
Forrar a mesa dos peixes
Pra você ser devorado.

Aconteceu uma coisa
Muito estranha, pelo visto:
Andei por cima das águas
Feito os discípulos de Cristo.
Lampião fez a careta
De quem diz: é o Capeta
Querendo ver se eu desisto.

Ao chegar do outro lado,
Eu falei pro adversário:
Vou botar mais uma conta
No cordão do seu rosário;
Quero ver você rezando,
Arrependido e chorando
Na capela do vigário.

Lampião:
Isso jamais acontece
Porque já sou vacinado.
Quem atira não me acerta,
As balas passam de lado;
Cangaceiro que se preza,
Não necessita de reza
Por ter o corpo fechado.

Baraúna:
Já estava ficando escuro
Quando mudei meu baião;
Fiz que lhe daria um soco,
Ele aparou com o facão;
Foi quando me deu na teia
De sacudir muita areia
Nos olhos de Lampião.

Narrador:
Com aquela nova estratégia
Deixou-o desnorteado,
Rodando que só pião,
Pulando pra todo lado;
Disse: vôte, te arrenego!
Além do meu olho cego,
O outro desmantelado.

Lampião:
Quanto murro já levei
Que vejo estrelas na lua;
Mais um chute na canela
Que furou feito uma pua;
Desse jeito estou rendido,
Pro homem mais destemido
Que já viveu nesta rua.

Quem já viu valente assim
Com tanta disposição?
Eu aqui todo equipado
De punhal, rifle e facão,
Lutando de igual pra igual
Com um poderoso rival
Que só usa os pés e as mãos.

Baraúna:
Você não viu nem um terço
Do que meu braço é capaz;
É programação genética
Que vem dos meus ancestrais;
Descendentes verdadeiros
Dos antigos cavaleiros
Dos tempos medievais.

Narrador:
Nisso chegou a polícia,
O sargento e o delegado
Que algemaram os cangaceiros
Cabisbaixos, derrotados.
Foi mandado um telegrama,
Contando a bravura e a fama
Pro governador do Estado.

Mas antes de serem presos
Foram levados pra praça;
Para dançar o xaxado
E o povo assistir de graça;
E a partir desse instante
Nunca mais houve um levante
E nem qualquer ameaça.

Baraúna:
Todo mundo se espantou
Com esse acontecimento,
E foi logo construído
Para mim um monumento;
Porém como eu sou modesto
Não vou nem contar o resto
Das conseqüências do evento.

Parece até pabulagem
Falar assim desse jeito;
Mas quem quiser comprovar
É só falar com o Prefeito;
Foi ali que ganhei fama,
Hoje eu me deito na cama
Só recordando os meus feitos.

Narrador:
Mas a inveja é irmã da raiva
E tia-avó da ganância;
A preguiça por seu turno
É sua amiga de infância;
Olho-gordo faz cautela
Porém é parente dela,
Embora um pouco à distância.

Foi por causa dessa inveja,
Em razão do seu prestígio,
Que a mão do mal, escondida,
Agiu sem causar litígio;
De noite veio um coiteiro
Que soltou os cangaceiros
Sem deixar qualquer vestígio.

Quando Lampião chegou
Na sua caatinga brava,
Mandou de volta um recado
Dizendo que só esperava
A vez de lhe dar o troco
Daquele triste sufoco
Que o desqualificava.

Baraúna:
Passado já tanto tempo
Eu nunca mais vi o homem;
Nem mesmo nas luas cheias
Na forma de lobisomem;
Pois como diz o ditado:
Formigas do meu roçado
Já sabem a roça que comem.

Fontes textos: http://www.usinadeletras.com.br/exibelocurriculo.php?login=EloiMelo

http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=11515&cat=Cordel&vinda=S

Imagem: http://www.overmundo.com.br/uploads/overblog/multiplas/1223405430_800pxbandeira_da_paraiba.svg_1.jpg

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