CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cordelista paraibano José Costa Leite

paraiba[1]

Por Everardo Ramos (site da ABLC)

       José Costa Leite nasceu em 27 de julho de 1927, em Sapé (Paraíba). Diz que nunca freqüentou a escola, tendo aprendido a ler soletrando folhetos de cordel. Em 1938, muda-se com a família para Pernambuco, fixando residência em Condado, cidade onde mora até hoje. Ainda criança, trabalha nas plantações de cana-de-açúcar e faz seus primeiros versos imitando o cordel. Em 1947, começa a vender folhetos nas feiras do interior e, em 1949, publica seus primeiros títulos: Eduardo e Alzira e Discussão de José Costa com Manuel Vicente. Logo em seguida, improvisa-se xilógrafo, gravando na madeira a imagem que ilustra seu terceiro título, O rapaz que virou bode. Torna-se, assim, um profissional polivalente, exercendo todas as atividades ligadas à literatura popular: é poeta, editor, ilustrador e continua a vender folhetos, de feira em feira.

      Autor de clássicos

          Verseja sobre praticamente todos os temas do cordel, sendo o autor de clássicos como A Carta misteriosa do Padre Cícero Romão Batista, O dicionário do amor e Os dez mandamentos, o Pai Nosso e o Credo dos cachaceiros. Além das histórias em verso, publica anualmente o Calendário Brasileiro, almanaque astrológico de 16 páginas contendo diversos conselhos práticos, de grande sucesso junto ao público. Denomina sua folhetaria A Voz da Poesia Nordestina. Em 1976, recebe o Prêmio Leandro Gomes de Barros, da Universidade Regional do Nordeste (Campina Grande), pelo conjunto de sua obra, talvez a mais extensa da literatura de cordel brasileira, em número de títulos.

                                         Obras de arte

         Suas xilogravuras ilustram inúmeros folhetos – seus e de outros poetas – e ganham status de obra de arte a partir dos anos 1960, quando passam a ser publicadas em álbuns e expostas em museus, no Brasil e no exterior: em 2005, José Costa Leite é o convidado especial de uma exposição realizada no Musée du Dessin et de l’Estampe Originale de Gravelines (França), onde também dá ateliês de xilogravura. Ao completar 80 anos, em 2007, foi homenageado na Paraíba, juntamente com o escritor Ariano Suassuna, e recebe o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, reconhecimento máximo de um artista de múltiplos talentos, que fez da poesia e da beleza a matéria-prima de seu labor. As informações sobre José Costa Leite constam em entrevistas dadas a Everardo Ramos nos anos de 2000, 2005 e 2008.

         Vejamos um cordel deste poeta:

A Véia Debaixo da Cama e a Perna Cabeluda

Eu não posso está parado
que a poesia me chama
para distração do povo
vou descrever mais um drama
da perna preta cabeluda
que encontrou carrancuda
a véia debaixo da cama

A véia debaixo da cama
criava um diabo dum rato
um leão e um jumento
um porco, um bode e um gato
um cachorro que ladrava
e um macaco que chiava
nunca vi bicho tão chato

A zuada era medonha
pois o bode bodejava
o leão soltava esturros
e o jumento rinchava
na meia noite sombria
quando o cachorro latia
o porco também roncava

A véia dormia pouco
tratando da bicharada
porque debaixo da cama
a zuada era danada
então a véia dizia:
- Tanto bem que te queria
e vai se acabar tudo em nada

O povo chamava ela
a véia Zefa Beiçuda
apesar de ser coroa
inda era boazuda
e o pior aconteceu
quando um dia apareceu
a perna preta cabeluda

Pois a perna cabeluda
em São Lourenço apareceu
e o Jornal do Comércio
toda reportagem deu
à TV Globo anunciou
e todo rádio citou
como foi que aconteceu.

De São Lourenço a Tiuma
e de Peixinho a Olinda
ela tem feito desordens
porém quem não viu ainda
diz até que é mentira
porém a notícia gira
e não sei quando se finda

Outro dia em Paudalho
na hora que o trem vinha
a perna preta apareceu
mesmo com toda morrinha
a perna já afobada
deu uma grande pesada
que o trem saltou da linha

Correu atrás dum sujeito
que voltava dum forró
ele viu a perna preta
e correu de fazer dó
a perna cabeluda e feia
correu quase légua e meia
atrás, no seu mocotó

Marieta em Rio Doce
muito nome feio chama
com a perna cabeluda
e foi dormir com a ama
a meia-noite Marieta
avistou a perna preta
deitada na sua cama

Zé Soares no Recife
viu a perna cabeluda
em Água Fria e saiu
numa carreira raçuda
mas a perna disse assim:
- Meu filho, espere por mim
porque eu sou boazuda

Palito lá em Olinda
por ser um pouco descrente
disse que era mentira
em sonho viu calmamente
a perna lhe aparecer
e todo instante ele ver
a perna em sua frente

Zé de Souza em São Lourenço
saiu de manhã bem cedo
para apanhar o ônibus
debaixo dum arvoredo
a perna lhe apareceu
e Zé Souza correu
todo assustado com medo

João Vicente Emiliano
viu a perna na carreira
de Vitória a Gravatá
como quem vai pra pesqueira
um vaqueiro em Orobó
vendo uma perna só
mergulhou na capoeira

Dizem que em Limoeiro
a velha Maria Duda
vive toda arrepiada
que chega ficou beiçuda
ela contou a vizinha
que sonhou a noite todinha
com a perna cabeluda

Dizem que a perna é
da parte de satanás
e vive andando no mundo
para perturbar a paz
e do sujeito desordeiro
mentiroso, arruaceiro
ela vive sempre atrás

A perna cabeluda vive
todo instante e toda hora
atrás da moça que anda
com o umbigo de fora
pois a perna cabeluda
vendo uma moça peituda
nunca mais que ir embora

A perna cabeluda gosta
de sujeito cabeludo
e do cabra que fala fino
mulher galheira e xifrudo
Quem anda fora de hora
com a perna preta agora
vai desertar quase tudo

A véia debaixo da cama
chamada Zefa Beiçuda
criando a bicharada
feia, parecendo um "juda"
quando ela saiu fora
e encontrou-se na hora
com a perna cabeluda

Quando a véia viu a perna
quis correr não pode mais
a véia saiu na carreira
e a perna correu atrás
e quando a véia entrou
em casa, a perna chegou
pior do que satanás

A perna falou pra velha:
- Se apronte que é hora
de você pagar-me tudo
que fez por aí afora
disse a velha beiçuda:
- Nem de perna cabeluda
eu estou gostando agora

Disse a perna cabeluda
– Você vai quebrar no beco
a minha parada é dura
eu sou irmã de Pacheco
você correndo eu lhe pego
hoje aqui a volta é prego
e o ponche é nabo seco

A véia beiçuda disse:
- Em você não tenho fé
vou lhe mostrar quem eu sou
pra saber vece que é
e a perna cabeluda
partiu pra Zefa Beiçuda
dando coice e pontapé

A véia caiu no chão
e a perna se danou
dando pesada em tudo
todos os bichos soltou
o macaco fez carreira
danou-se na capoeira
nunca mais voltou

O cachorro pegou latir
e o burro pegou rinchar
enquanto o gato miava
o porco danou se a roncar
e véia Zefa Beiçuda
vendo a perna cabeluda
sua cama revirar

A cama virou com tudo
ficando os "cacos" no chão
e a perna cabeluda
deu um coice no leão
enquanto a véia chamava
a cobra qu’ela criava
para entrar em ação

A cobra mordeu o porco
ela saltou muito além
a cobra estava com raiva
mordeu a véia também
a véia Zefa Beiçuda
viu a perna cabeluda
correndo igualmente o trem

A véia Zefa Beiçuda
morreu debaixo da cama
e a perna cabeluda
aonde alguém não lhe chama
chega sem ser esperada
já foi vista na estrada
perto de Tuparetama

E o cabra que for chifrudo
cuidado, muito cuidado
a perna cabeluda gosta
do cabra que é veado
pra lhe dar um contra-tempo
e lhe servir de exemplo
do que é bom está guardado

E o ditado que diz
leve a trouxa pra lavar
de olho na boutique dela
e quem quiser palestrar
namorando o filho da véia
brincando bilu tetéia
vai ver a perna chegar

A maior parte do povo
tudo que deseja faz
vive fazendo do mundo
os gostos de satanás
hoje só há perdição
ódio, inveja e perdição
o mundo não presta mais

Deus Eterno e Poderoso
daí-me vossa proteção
para ver se o povo sai
da vala de perdição
daqui para o fim da era
nada de bom se espera
por causa da corrução

Vamos pedir proteção
a Nossa Senhora das Dores
e a Jesus Nazareno
que é Pastor dos pastores
estamos no fim do mundo
só Deus pode num segundo
defender os pecadores

Com esta santa oração
O satanás afastamos
Sem ter nenhum medo vamos
Todos entrar em ação
A virgem da Conceição
Lhe pedir com viva fé
E na matriz do Canindé
Implorar a São Francisoco
Ter confiança sem risco
Em Jesus, Maria e José.

FIM

Fontes:

Textos:http://www.ablc.com.br/historia/hist_cordelistas.htm

http://www.ablc.com.br/popups/cordeldavez/cordeldavez022.htm

Imagem: http://www.interpoetica.com/imagens/jose_costa_leite1.jpg

Um comentário:

  1. Queira muito o cordel dele O rapaz que virou bode, tem como postar?

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