CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

domingo, 2 de outubro de 2011

Alagoanos conseguem sobreviver usando a literatura de cordel para disseminar a cultura

Como afirmou o poeta Carlos Drummond Andrade: “A poesia de cordel é uma das manifestações mais puras do espírito inventivo, do senso de humor e da capacidade crítica do povo brasileiro”. Os cordelistas costumam contar histórias de vida e fatos do cotidiano, geralmente não possuem escolaridade, mas têm uma sabedoria e memória invejáveis. Essas são características da literatura de cordel, que teve sua origem no Renascimento, com os relatos dos trovadores.

Os folhetos eram pendurados em cordões para que fossem comercializados, por isso, a cultura ganhou o nome de cordel e virou marca no Nordeste do Brasil. Mesmo com pouco incentivo, em Alagoas vários poetas sobrevivem da literatura de cordel, fazendo criticas ao sistema político e exaltando a figura do sertanejo, com uma linguagem popular, cheia de humor e sabedoria.

O poeta Jorge Calheiros, 74, começou a escrever literatura de cordel há 37 anos. Hoje, ele possui 89 edições publicadas e com uma memória surpreendente, desse número ele sabe 55 versos de cor. É o poeta que tem mais livros publicados nos Estado. “Quando eu era criança não tive o direito de ir para a escola, eu morava no interior, em Pilar e meus pais compravam o que chamavam de livro de histórias. Quem sabia ler naquele tempo era doutor, então tinha uma pessoa que lia o livro para 30 ou 40 pessoas, e foi assim que comecei a me interessar”, lembrou.

Calheiros fala que começou a escrever cordel em Alagoas, mas o incentivo era muito pouco. “Eu fui um dos primeiros a trazer para a televisão de Maceió a literatura de cordel, no rádio já se ouvia falar, mas na TV não. Agora as pessoas estão conhecendo o potencial de cordelistas que Alagoas tem”, contou.

O primeiro livro que ele escreveu foi batizado de “Meu querido São Francisco”, onde ele narra histórias sobre o Velho Chico e o último foi uma história bem humorada intitulada “Gastei todo meu dinheiro”. Calheiros diz que esse reconhecimento veio há pouco tempo e cita alguns artistas da Terra como o poeta Demes Santana.

“Eu, por exemplo, já tive um bom reconhecimento pelo Estado, o governador Teotônio Vilela e o secretário de cultura, Osvaldo Viegas engrandeceram a cultura, eu e outros cordelistas fomos homenageados como patrimônio vivo de Alagoas. Nós recebemos uma bolsa do Estado todo mês, é um incentivo para que a literatura tenha mais progresso”, frisou.

Jorge fala então da vontade de incentivar as crianças a aprender a cultura do cordel. “Eu gostaria que esses livros chegassem às mãos das crianças que estudam na rede pública, sem que elas precisassem comprar, seria muito bom para o aprendizado desse estudantes”, afirmou.

A vontade do poeta era de criar uma escola para ensinar a arte do cordel às próximas gerações. “Não quero deixar que isso morra comigo, na minha família não tem ninguém que tenha vocação para a literatura”, destacou.

Antigamente, com a ausência dos meios de comunicação, principalmente nos lugares mais afastados, a literatura se transformou em um informativo. “O cordel era o jornal do dia, qualquer notícia era dada por ele, no interior não existia outra forma de comunicação”, explicou Jorge.

Segundo o poeta, como forma de propagar os poemas o cantor escrevia e ele mesmo ia para a feira e ensinava a música ao ouvinte. “O violeiro que cantava cordel tinha que ter decorada uma parte do texto, para que o povo ficasse ansioso em ver o resto da história e comprasse o livro”, contou.

Jorge ainda fala que hoje consegue viver da literatura de cordel. “Na posição que estou dá pra viver tranquilo meus cordeis estão sendo considerados os melhores do Estado e eu me considero feliz por não ter ido à escola e mesmo assim, conseguir fazer esse tipo de literatura que tem agradado tanto os alagoanos quanto as pessoas de todo país”.

Um dos livros de Jorge Calheiros intitulado “O matuto Zé Cará” virou um curta metragem de 15 minutos e ganhou destaque nas telonas, com a direção de Tato Sales. O filme é narrado por Jorge e mostra o povo e o futebol de Coruripe na visão de um pescador. “O filme está sendo bem vendido nas bancas da cidade e no museu Théo Brandão”, frisou o poeta.

Jorge Calheiros fala de um livro intitulado “O encontro de tranqueiro com São Pedro lá no céu” que conta a história política do Brasil. “Eu pesquisei e contei a história todinha, ganhei um prêmio de R$ 10 mil em Minas Gerais, foi a melhor critica e aqui m Alagoas não ganhei nada”, lamentou.

Ele ainda acrescenta que tem um estilo próprio até para fazer as xilogravuras- os desenhos que compõem seus poemas. “ Eu procurei uma capa própria e fiz com que os leitores se interessassem mais pelo conteúdo, tem muitos cordeis sendo vendidos por aí que o povo é influenciado pela capa e não possui conteúdo e isso vale para qualquer outro livro”, disse ele.

Maria José de Oliveira, mais conhecida como Mariquinha, começou lendo cordel para os avós, no município de Coqueiro Seco. Sempre procurou inspiração na natureza e seu primeiro cordel foi “O Progresso e a decadência”, que ela fez sobre o aterro da Lagoa Mundaú. “Minha inspiração nasceu a partir do sururu”, contou.

Hoje com 31 publicações, Mariquinha fala que queria ser enfermeira, mas ao entrar em uma escola técnica de enfermagem teve seu primeiro ataque epiléptico e não pode mais fazer o curso. “Mas continuei fazendo meus versos”, disse.

Mariquinha relembra que ganhou um emprego em consequêcia de um verso que escreveu para o presidente João Batista Figueiredo, que veio visitar Alagoas e estava no palácio dos Martírios. “ Nos anos de 1972 a 1982 eu vivia procurando emprego, no dia 02 de julho de 1982 falei com Figueiredo e ele pediu pra eu escrever uma carta, eu fiz em três minutos, então eu consegui um emprego”, relembrou.

Ela ainda conta que em 1998 escreveu uma carta em verso e mandou para o Jô Soares, mas só veio ser atendida em junho de 2000. “A entrevista no Jô foi ótima, depois da entrevista fui mais reconhecida, antes do Jô ninguém me ajudava. Meu trabalho se tornou mais valorizado, passei a vender mais, ser chamada para palestras”, declarou.

Ao ser questionada sobre os incentivos do governo para perpetuar a cultura, a poetisa é incisiva: “O governo do Estado não incentiva, tem pouquíssimo investimento. É um sacrifício, mas mesmo assim eu consigo sobreviver da literatura”, reclamou.

Em 1992 quando o Papa João Paulo II esteve em Maceió, Mariquinha entregou um livro e algum tempo depois, recebeu uma carta dele. Mariquinha também conta que em meio às suas aventuras participou do quadro se vira nos 30, do Domigão do Faustão. “Eu cantei uma música do Jorge de Altinho em 30 segundos e fiquei em segundo lugar. Abriram as inscrições do Se vira nos 30 novamente e eu já me inscrevi”, colocou.

Ela conclui, “Vou lançar mais cinco livros e tem um que é sobre a história do Papa João Paulo II. Mariquinha sempre expõe na Feira do Livro que é realizada no Centro de Convenções e realiza muitas palestras em escolas.

Mais um poeta atuante no cenário da literatura de cordel em Alagoas é Demes Santana, de 44 anos, que começou a escrever cordel quando morava na Bahia em 1997.

“Onde eu morava existia um pessoal que trabalhava com desenvolvimento sustentável, ele faziam um programa da saúde da mulher, mas os homens não se interessavam e para atrair mais gente para as palestras me chamaram e eu fiz um cordel sobre o assunto e isso atraiu a comunidade”, relembra o poeta.

Demer ainda explica que seu trabalho é focado na oralidade. “Apesar de usar mais a palavra, tenho cinco ou seis livros impressos e muita publicação virtual”, contou.

Ele fala também das dificuldades que existem para sobreviver da literatura em Alagoas e que nos outros estados como Sergipe e Pernambuco existe mais apoio. “A palavra certa é sobreviver e não viver e para isso eu preciso matar um leão por dia”, brincou.

Demes conta que se apresenta sempre em encontros de educação e feiras de negócios e afirma que a receptividade das pessoas é a melhor possível. “Todo mundo fica encantado e quer saber mais sobre a cultura”.

Fonte: http://giro101.cadaminuto.com.br

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