CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Literatura de Cordel em São Paulo

Reprodução do blog Cordel Atemporal

Brevíssimo histórico

Antônio Teodoro dos Santos, o Poeta Garimpeiro, foi o
grande desbravador da Literatura de Cordel em  São Paulo

A história do Cordel em São Paulo está diretamente ligada à diáspora nordestina e ao interesse de uma tradicional editora, fundada por um imigrante português, na década de 1910, em contemplar a grande massa de leitores,composta por trabalhadores atraídos pelas oportunidades de trabalho que a incipiente indústria brasileira oferecia. Abaixo, apresento um resumo desta história adaptado a partir do capítulo O Cordel no Sudeste, que integra o livro Breve história da Literatura de Cordel (ed. Claridade, 2010).

A Tipografia Souza, dirigida pelo imigrante português José Pinto de Souza (1881-1950), surgiu em 1912. Segundo Joseph Luyten, José Pinto veio para o Brasil em 1895, estabelecendo-se como tipógrafo na capital paulista. A princípio, a tipografia publicava modinhas e folhas soltas. Depois, foram editadas histórias tradicionais portuguesas em prosa e verso. Luyten informa que, desde a década de 1930, tais histórias foram retrabalhadas por poetas brasileiros, em geral nordestinos. Desta tipografia surgiu, em 1952, a editora Prelúdio, dirigida pelo filho de José, Arlindo Pinto de Souza e seu meio-irmão Armando Augusto Lopes.

No mesmo período, o poeta baiano Antônio Teodoro dos Santos apresenta alguns originais à editora. Teodoro escrevia sobre tudo, para todos. Seu cordel Vida e tragédia do presidente Getúlio Vargas, de 1954, escrito após o suicídio de Getúlio, vendeu, na primeira edição, impressionantes 260 mil exemplares.  Começa o período áureo da Literatura de Cordel publicada no Sudeste. A obra de Teodoro é vasta e de boa qualidade e, dentre os muitos títulos de sua lavra, ainda se destacam João Soldado, o valente praça que meteu o Diabo num saco e Lampião, o rei do cangaço, clássicos incontestes.

Para expandir a linha editorial abraçada pela Prelúdio, Arlindo Pinto se valeu de um artifício: publicou, sem autorização, títulos de grandes autores nordestinos. Manoel D’Almeida Filho e Rodolfo Coelho Cavalcante estavam entre as vítimas da “apropriação indébita”. Bateram às portas da editora e ouviram de Arlindo uma desculpa que acabou sendo convincente: as obras foram publicadas para forçar um contato com os autores residentes no Nordeste. Deu certo. Os poetas tornaram-se amigos e revendedores do esperto editor. Almeida, tempos depois, se tornaria o selecionador de textos da editora, função que exerceu até 1995, ano de sua morte.

Manoel D'Almeida Filho, mesmo residindo em Sergipe,
era o principal consultor da Luzeiro

A Prelúdio, após decretar falência, em 1973, adotou a razão social da Luzeiro (do Norte), de João José da Silva, de quem adquiriu os direitos de publicação de títulos de autores clássicos, como Manoel Pereira Sobrinho, José Camelo de Melo Resende, Severino Borges Silva e Caetano Cosme da Silva. Fez do nome o símbolo de seu renascimento. E, superando os problemas, a Luzeiro seguiu imprimindo os clássicos do gênero sob a orientação abalizada de Manoel D’Almeida Filho. Entre 1980 e 1986, a editora, com mais de seiscentos revendedores espalhados por todo o Brasil, viveu um ótimo momento.

O fracasso do Plano Cruzado, a partir de 1987, seguido da grave crise econômica que prostrou o país, atingiu em cheio a casa paulistana. O Cordel, aos poucos, desaparecia das feiras. Em 1995, Arlindo Pinto de Souza, desiludido com os efeitos da crise e o desinteresse dos filhos em dar continuidade à tradição familiar, vendeu a editora à firma dos Irmãos Nicoló, e a Luzeiro passou por um período de dificuldades. No mesmo período morre, vítima de enfisema pulmonar, Manoel D’Almeida Filho, amargurado ante o futuro incerto da editora e da própria Literatura de Cordel. Numa carta emocionada endereçada ao “compadre” Arlindo, o velho poeta não esconde a decepção e pressagia o próprio fim, que não tardaria a chegar.

Hoje, Gregório Nicoló é o único proprietário, e a Luzeiro, superando alguns problemas, renova as suas publicações, mantendo os títulos tradicionais, ainda com boa aceitação popular. Cordéis do acervo da velha Prelúdio, há muito fora de catálogo, retornaram às prateleiras e novos poetas foram incorporados ao elenco da editora. Nomes como Arievaldo Viana, Varneci Nascimento, Marco Haurélio, Rouxinol do Rinaré, Cacá Lopes, Evaristo Geraldo e Moreira de Acopiara, ao lado dos veteranos João Firmino Cabral, Antônio Alves da Silva e Mestre Azulão trouxeram novo alento ao cordel editado em São Paulo.

Outras iniciativas

Desde fins da década de 1970 até boa parte dos anos 1980, o pernambucano Jota Barros (João Antônio de Barros) e o baiano Franklin Maxado disputavam fregueses na Feira de Artes da Praça da República. Na Praça da Sé, o violeiro pernambucano João Cabeleira revendia os folhetos da Luzeiro, que ainda estavam expostos em várias bancas de revistas do Brás, bairro onde a editora estava estabelecida, à Rua Almirante Barroso. Outro grande divulgador foi o engajado poeta e ator pernambucano Rafael de Carvalho, cuja morte precoce, no início dos anos 1980, impediu a continuidade de um trabalho de cunho reivindicatório de suma importância, hoje quase esquecido.

Antônio Amaury Correa, estudioso do cangaço, e em especial de Lampião, também contribuiu para ampliar a bibliografia em versos do bandoleiro. O seu Lampião: origens de família e primórdios guerreiros do famoso cangaceiro é o único dos oito folhetos sobre o tema que foi publicado. Conta com belíssimas xilogravuras de Jerônimo Soares, e é hoje uma raridade. Severino José (Zacarias José), poeta popular e colecionador de folhetos, teve atuação marcante junto ao movimento sindical. O folheto Acidentes de trabalho no ramo da construção abriu espaço para outros trabalhos “de encomenda”, em que usam a fácil comunicação da Literatura de Cordel para alertar a respeito da prevenção de acidentes, doenças e até mesmo promover a conscientização política.

O mineiro Téo Azevedo (Teófilo de Azevedo Filho), repentista, cantor e compositor, gravado por grandes nomes da MPB, como Luiz Gonzaga e Zé Ramalho, esporadicamente dedica-se à Literatura de Cordel. Escreveu, em parceria com Klévisson Viana, A peleja de São Paulo com o monstro da violência, um folheto que toca no “calcanhar de Aquiles” da metrópole: a segurança pública.

Caravana do Cordel

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Na atualidade, o a poesia popular é representada, em São Paulo, por poetas oriundos de vários estados da “nação nordestina”, criadores e mantenedores do grupo cultural Caravana do Cordel, surgido em 2008. Renovando a tradição itinerante da poesia popular a Caravana já se apresentou em locais os mais variados: cineclubes, teatros, bibliotecas, escolas e praças. O grupo é composto por poetas, artistas plásticos, estudiosos e entusiastas da poesia popular do Nordeste. A origem dos caravaneiros é prova cabal da diversidade de propostas. Em várias apresentações, a caravana já rendeu tributo a poetas como Antônio Teodoro dos Santos, alem dos pioneiros Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista.

Outro que fator que contribuiu para a afinação entre os membros do grupo foi o lançamento da coleção Clássicos em Cordel, da editora Nova Alexandria. Alguns membros da Caravana são autores da referida coleção: o alagoano João Gomes de Sá trouxe para o Nordeste os personagens de O corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. Varneci Nascimento, baiano de Banzaê, recontou em cordel o clássico de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. O cerarense Moreira de Acopiara deu nova vestimenta ao famoso romance de Daniel Defoe, As aventuras de Robinson Crusoé. Costa Senna, seu conterrâneo, cordelizou Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne. E Cícero Pedro de Assis deu continuidades aos romances de cavalaria, trazendo para o Cordel a emblemática história do Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda. Além de autores residentes em outros estados, a coleção ainda traz versões poéticas de dois clássicos de William Shakespeare: A megera domada (por Marco Haurélio) e Romeu e Julieta (por Sebastião Marinho).

Autores publicados pela Luzeiro, apoiadora da iniciativa, também marcam presença no grupo: Nando Poeta, Cleusa Santo, Pedro Monteiro, Luiz Wilson, Cacá Lopes, Carlos Alberto e Josué Araújo, entre outros. Aderaldo Luciano, doutor em Letras pela UFRJ, também trouxe valiosa contribuição, transformando o grupo num movimento-escola. O lema criado por João Gomes de Sá – É o mundo do Cordel para todo o mundo! –, coroando o êxito da Caravana do Cordel, tornou-se, também, um legítimo manifesto.

Nota: Texto publicado, com modificações, no livro Acorda Cordel na Sala de Aula, de Arievaldo Viana (org).

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