CORDEL PARAÍBA

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Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não pertence a coronel./É propriedade do povo:/rico, pobre, velho, novo/deliciam-se deste mel./Rico, pobre, velho, novo/Deliciam-se neste mel.

(Manoel Belisario)



sexta-feira, 11 de março de 2011

Campanha apela para cordel e vídeo impactante sobre crack (no Piauí)

O governador disse que gostou de todas as peças e que tinha lhe impressionado com o cordel.

          A literatura de Cordel é um dos instrumentos que será usada na campanha para alertar as famílias para o perigo do crack. Nesta sexta-feira (11), o governador Wilson Martins (PSB) lançou oficialmente a campanha que será colocada na rua, nos bairros, escolas públicas e privadas e nas igrejas.

Fotos: Thiago Amaral


          Outra peça que chamou atenção foi o vídeo da campanha. As imagens são chocantes e alerta para as mortes pelo uso do crack. O folder mostra uma fotografia de um rapaz em meio a lixos e coberto por um papelão.

          O governador disse que gostou de todas as peças e que tinha lhe impressionado com o cordel e leu duas estrofes de autoria de Pedro Costa.

“Toda droga é uma droga
Ela contém heroína
O uso dela contínuo
Dar um mau estar e mofina
Seja bebidas ou maconha,
Fumo crack e cocaína”

“Provoca uma depressão.
Uma intensa dependência,
Ilusões, perseguições,
Uma perda de aparência,
Destruição dos neurônios
E perda de consciência.”

Flash Yala Sena
yalasena@cidadeverde.com

Fonte: www.cidadeverde.com

quarta-feira, 9 de março de 2011

LIVRO EM CORDEL “A ROUPA NOVA DO IMPERADOR”

Editora Prumo traz, em formato de poesia, a divertida história do vaidoso imperador enganado por dois ladrões

         A Editora Prumo lança, este mês, a obra “A Roupa nova do imperador”, recontada em forma de literatura de cordel pelo escritor João Bosco Bonfim, com ilustrações de Laerte Silvino. O livro é uma adaptação do clássico conto do autor Hans Christian Andersen – que é conhecido por suas diversas obras, entre elas, O Soldadinho de chumbo e a Pequena Sereia.

          O livro narra a história do imperador que foi enganado por dois ladrões, que se fingiram de tecelões e disseram ter feito uma linda roupa para ele, mas que apenas as pessoas perfeitas poderiam vê-la. Apesar de não enxergá-la, o rei, vaidoso e perfeccionista, sai às ruas exibindo sua roupa, até que uma criança desfez a farsa ao gritar no meio da multidão: O rei está nu!

         Desenvolvido em Portugal e popularizado no nordeste brasileiro, o cordel, famoso poema popular, recebeu este nome por ter seus impressos expostos para venda em cordas ou cordéis. O livro possui versos em sextilha com estrofe de seis versos de sete sílabas, com o segundo, o quarto e o sexto rimados, o que torna a leitura ainda mais prazerosa.

           Os traços bem regionais e os tons vibrantes utilizados por Silvino nas ilustrações completam a obra, realçando a leveza e a alegria características dos contos populares.

         “A Roupa nova do imperador” é o segundo livro da coleção em cordel que transforma os contos em rimas. A primeira obra – “O soldadinho de chumbo” também é de autoria de João Bosco Bezerra.

SOBRE O AUTOR

          João Bosco Bezerra Bonfim nasceu em 1961, no Ceará. Mudou-se para Brasília em 1972, onde vive até hoje. Mas sua vivência do sertão, reconfirmada nas constantes viagens, levou-o a admirar as histórias narradas pelos mais antigos. Contadas na varanda das casas, as narrativas de valentia ou de assombração da tradição oral brasileira são tão ricas como quaisquer outras da literatura universal. Graduado em Letras (1986), com Mestrado (2000) e Doutoramento (2009) em Lingüística, tem pesquisas sobre o cordel brasileiro. Com duas dezenas de livros publicados, vários deles para crianças, tem atuado em escolas, feiras e festas literárias, contando histórias e ministrando oficinas sobre a arte de ler e criar.

SOBRE O ILUSTRADOR

          Laerte Batista Silvino é de Recife, Pernambuco. Ilustra para diversas revistas de circulação nacional e para algumas editoras de literatura infanto-juvenil e de livros didáticos. Também publicou quadrinhos em várias revistas do gênero. Como cartunista expôs em vários salões no Brasil e no mundo (Irã, Portugal, Estados Unidos etc.). Atualmente também trabalha como ilustrador do jornal Folha de Pernambuco.

Fonte: correiodearaxa.com.br

Imagem: blog1.aprendebrasil.com.br

I FEIRA DE LITERATURA DE CORDEL DO SERTÃO

 

          Dia 25 de março (sexta feira) estará acontecendo no Museu do Cangaço - Serra Talhada/PE  a 1ª FEIRA DE LITERATURA DE CORDEL DO SERTÃO.
          A FUNDAÇÃO CULTURAL CABRAS DE LAMPIÃO convida todos os artistas e intelectuais da região para  "um brinde a nossa identidade cultural".

                       PROGRAMAÇÃO
16h00min – Palestra - Cordel e Identidade Cultural: Aspectos históricos, econômicos, sociais e simbólicos da literatura popular escrita no Nordeste brasileiro, com Adriano Marcena.
19h30min – Apresentação do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião.
20h00min - Recital com os poetas:
 Chico Pedrosa
 Dedé Monteiro (Lançando seu livro – MEU QUARTO BAÚ DE RIMAS)
 Gonga Monteiro (Lançando seu livro – VIDA E VERSO)
 Mariana Teles
 Edgar Diniz
 Felipe Júnior
 Caio Menezes
 Dudu Morais
 Dulce Lima
 Zé de Mariano
 Aderval Soares
 Neide Nascimento
 Paulo Moura
 Gilberto Mariano
 Rui Grúdi
 Damião Enésio e Zé Pereira

          O evento é patrocínado pelo Programa BNB de Cultura 2011 / BNDES/Governo Federal e SEBRAE.

SERVIÇO:

Rua Virgolino Ferreira da Silva, 06 – COHAB – 56.909-110 Serra Talhada – PE.

Telefone: (87) 3831 2041 / 3831 3860 / 9918 5533

Site: www.cabrasdelampiao.com.br

E-mail: cabrasdelampiao@bol.com.br

Fonte: raimundopajeu.blogspot.com

segunda-feira, 7 de março de 2011

Literatura de cordel

 


           A literatura de cordel foi introduzida no Brasil pelos portugueses, século XVIII. É poesia popular impressa e divulgada em folhetos ilustrados em xilogravuras. Tem este nome porque em Portugal os folhetos eram expostos em cordões, chamados cordéis.
            A publicação gráfica de um folheto de cordel transparece de maneira plena, a sua oralidade. Ele pertence ao universo sem escrita dos cantadores, cujo acervo do saber é a memória, ritmar o universo.
           A literatura oral não se restringe à mera tarefa de substituir a produção literária impressa nos ouvidos e nas bocas dos que não costumam ler. A literatura oral é mais velha que a escrita. Uma cultura elitizada tende a classificar o cordel, as expressões e sabedoria do povo como uma literatura ingênua, pitoresca, folclórica.
A literatura de cordel é obra popular transformada em arte. Junto com as migrações, o cordel foi introduzido nas metrópoles do Brasil, sua abordagem não é só regional, são constantes os temas atuais, urbanos, adivinhas, parlendas, estórias, travalínguas, romances e anedotas.
            Voz e ritmo que provêm de um ambiente socialmente pobre, o cordel é capaz de atingir a todas as camadas sociais, utilizando a imaginação e criatividade popular.
Principais autores:

Leandro Gomes de Barros: Foi o mais importante autor da literatura de cordel, ainda é o escritor mais lido entre os escritores populares. Publicou aproximadamente mil folhetos e tirou deles mais de dez mil edições, nascido no município de Pombal, Paraíba no ano de 1865 viveu exclusivamente de escrever seus versos populares. Fazia críticas sobre a política, história, religiosos. Denunciava os abusos dos coronéis. Principais obras:

  • O punhal e a palmatória
  • O cavalo que defecava dinheiro
  • O cachorro dos mortos
  • História do boi misterioso
  • A vida de Pedro Cem
  • Os sofrimentos de Alzira
  • História de João da Cruz
  • A mulher roubada
  • Suspiros de um sertanejo
  • A seca do Ceará

                               Leandro Gomes de Barros

Trechos de suas obras:
"Leitores peço desculpas
Se a obra não for de agrado,
Sou um poeta sem força
O tempo tem me estragado,
Escrevo há 18 anos
Tenho razão de estar cansado"
                                               (A mulher roubada)
"Nós temos cinco governos
O primeiro o federal
O segundo o do estado
O terceiro o municipal
O quarto a palmatória
E o quinto o velho punhal"
                                               (O punhal e a palmatória)
"Se vendo o compadre pobre
Naquela vida privada
Foi trabalhar nos engenhos
Longe da sua morada
Na volta trouxe um cavalo
Que não servia pra nada


Disse o pobre à mulher:
-como havemos de passar?
O cavalo é magro e velho
Não pode mais trabalhar
Vamos inventar um 'quengo'
Pra ver se o querem comprar.


Foi na venda e de lá trouxe
Três moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguém
Para não ser censurado
No fiofó do cavalo
Foi o dinheiro guardado


Do fiofó do cavalo
Ele fez um mealheiro
Saiu dizendo: -sou rico!
Inda mais que um fazendeiro,
Porque possuo o cavalo
Que só defeca dinheiro..."

   (O cavalo que defecava dinheiro)

João Martins de Athayde: Nasceu na Paraíba e criado em Pernambuco. Não frequentou a escola, aprendeu a ler e escrever sozinho, começou a admirar a poesia popular porque ouvia os cantadores da região, sua primeira rima foi composta aos 12 anos. Comprou os direitos autorais de Leandro Gomes de Barros e editou também os poemas deste grande cordelista. Principais obras:

  • A bela adormecida no bosque
  • A menina perdida
  • A moça que foi enterrada viva
  • A sorte de uma meretriz
  • História de Joãozinho e Mariquinha
  • História de José do Egito
  • O retirante
  • O segredo da princesa
  • Romeu e Julieta
  • Um passeio no escuro

João Martins de Athayde

Cuíca de Santo Amaro: Baiano, gostava de retratar o quotidiano de sua terra natal, era um tipo de cronista e repórter, qualquer fato interessante, Cuíca não deixava "escapar". Gostava de fazer denúncias contra corruptos e poderosos de sua época e era grande amigo de Jorge Amado. Algumas obras:

  • O sururú na federação de desportos terrestres
  • O câmbio negro e as misérias na Bahia
  • O casamento de Orlando Dias com Cauby Peixoto
  • A grande explosão! no barracão de fogos
  • O carnaval da bandalheira
  • Políticos e demagogos e homens sem palavra

Cuíca de Santo Amaro

Trecho de sua obra:
"Era imenso o galinheiro
Estava mesmo lotado
Tudo de camisa verde
Era um quadro gozado
Porém só tinha um galo
E era o Plínio Salgado


Porém o galinheiro
Muito tempo não durou
Quando foi um belo dia
Getúlio Vargas cismou
Agarrou logo o galinheiro
E o rabo logo cortou.


Nunca disse a ninguém
Que eu era Getulista
Nem também afirmei
Que eu era Queremista
Todos sabem muito bem
Que eu sou propagandista..."

Fonte: elaineruizcederj.blogspot.com

Imagem: girafamania.com.br

PRIMEIRA PLENÁRIA – ABLC – MARÇO DE 2011

Por Blog da Ablc

Plenária dedicada a Juvenal Galeno com palestra da Acadêmica Dalinha Catunda

Academia Brasileira de Literatura de Cordel/ABLC
Rua Leopoldo Fróes, 37-Santa Teresa
DATA: Sábado, 19 de março de 2011 as 16:00 hs
PAUTA: Homenagem a Juvenal Galeno, entrega de medalha a Manoel Monteiro e Madrinha Mena.

          A plenária da ABLC, no sábado, 19 de março de 2011 será em homenagem a Juvenal Galeno patrono de Maria de Lourdes Aragão Catunda – Dalinha Catunda – que ocupa a cadeira nº 25. A Acadêmica discorrerá sobre o poeta e folclorista Juvenal Galeno nos brindando com uma rica palestra em homenagem a esse ilustre cearense.

           Em seguida teremos a presença de Manoel Monteiro que veio da Paraíba para o Rio de Janeiro participar do Encontro com poetas e roda de cantorias.

          O renomado cordelista receberá a principal comenda criada pela ABLC com a finalidade de premiar grandes vultos da literatura de cordel: O medalhão Leandro Gomes de Barros.

            No decorrer da plenária Madrinha Mena, que tem sido uma figura marcante na vida da ABLC recebera a medalha Rogaciano Leite em nome de sua dedicação a essa entidade.

          Teremos ainda como de praxe a palavra dos acadêmicos presentes manifestando-se sobre os variados assuntos, declamando, cantando, enfim, animando à tarde festiva em Santa Tereza.
Sendo a primeira plenária do ano onde os cordelistas e poetas se encontram depois de longo recesso e com tantas homenagens, com certeza teremos uma farta platéia sedenta de confraternização.
Assim sendo, a ABLC Academia Brasileira de Literatura de Cordel Convida os amigos e convoca os confrades para este evento especial.

Postado por: Dalinha Catunda

Fonte: ablc.com.br

Imagem: cantinhodadalinha.blogspot.com

CORDEL ENVELHECIDO

Por: Aline Braga
cultura@cinform.com.br


         Em 2006 a deputada estadual Ana Lúcia Menezes concedeu o título de utilidade pública à Associação de Cordelistas e Repentistas de Sergipe - Ascorese. Quer dizer, sem delongas, que o cordel e o repente são patrimônios imateriais, fazem parte da construção histórica da população e fator de identidade ao longo do tempo. Para além de dizer quanto chegam a ser reconhecidas com esse título, as entidades podem marcar território em situações burocráticas e receber um valor em dinheiro para arcar com suas despesas de existência.
          Bem, mas cinco anos depois do título, tendo conseguido sede própria, fortalecido a classe, reinserido o cordel em vários mais eventos na capital e no interior - claros avanços, grande parte dos sergipanos segue apática em relação a essa literatura. Não indiferentes a isso, há muito os cordelistas vem reivindicando o estudo das obras na universidade e o uso dessa literatura no ensino fundamental. "É cultura sergipana de base", afirma a presidente da Ascorese, Josineide Dantas, mais conhecida como Gigi.

Rimas emparelhadas e fracas
Associação consegue título de utilidade pública, mas vivência da sociedade nas letras do cordel ainda é uma deficiência

          Por meio da Ascorese, Gigi e seus colegas de rimas como Zé Antônio, Zezé de Boquim, Damião Pernambucano e Ronaldo Dória assumiram a difícil tarefa de fazer da tão popular literatura de cordel uma arte realmente popular. Para provar que, apesar de muito falada, essa tradicional literatura regional não anda na boca do povo, basta saber que talvez o único poeta cordelista local mais conhecido seja o por muitos desconhecido João Firmino Cabral.
          Natural de Itabaiana, hoje ele pertence à Academia Brasileira de Literatura de Cordel e é referência não somente em Sergipe. Mas o problema é ser referência de algo que a geração internet não quer assumir nem carregar consigo. Isso fica bem claro quando se conversa mesmo com os grandes nomes. De acordo com José Rodrigues Sobrinho, 56 anos, repentista a 36, as perspectivas são ruins.
           "O futuro é escuro, porque a juventude não teve incentivo, outros não se interessam. A gente vê como muito curta essa estrada para a nossa profissão. Tem aí um ou dois surgindo, querendo se incluir. O índice é muito pouco", afirma ele, mais conhecido como o grande Vem-vem do Nordeste. E apesar de ter vivido do repente por todo esse tempo, hoje além dos shows apresenta o programa 'Canto e Viola', na Rádio Xingó, de Canindé.

REPENTE
          Vem-vem tem sete discos lançados, entre LP´s e CD´s, e vai lançar o oitavo neste abril próximo - mesmo tendo que se dividir entre locutor, repentista e assessor da Secretaria Municipal de Cultural de Canindé de São Francisco. Segundo Vem-vem, que tem pai pernambucano e também repentista, sua geração teve influência de outros nordestinos da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte, que vieram a Sergipe e aqui desenvolveram sua arte.
          Antes, e o mesmo panorama vem se consolidando, o repente nordestino era rico, mas carecia de representantes. "Represento Sergipe através de gravações, programas de rádio. Acabamos de fazer uma matéria para o programa de Ana Maria Braga, da Globo, também com a Record, fizemos documentário com a Aperipê, mas os demais, tipicamente sergipanos, tem poucos sergipanos e muitos até já deixaram", afirma Vem-Vem.
           Da mesmo opinião, apesar de trajetória diferente, é Edésio da Silva Maciel, 54 anos, o Galego da Viola. O pernambucano, repentista e cordelista há 32 anos, já vive há quatro décadas em Aracaju, e foi em Sergipe que aprendeu a versejar. Hoje ele também comanda um programa de viola na Rádio Princesa da Serra, o Clube da Sanfona e da Viola, mas vive do repente.
           Segundo ele, não é em qualquer lugar que se faz cantoria hoje. "O sertão da Bahia e Itabaiana são lugares que merecem destaque", comenta Galego. "A cantoria em Sergipe é meio parada, mas está superviva em Pernambuco, Rio Grande do Norte", completa. Uma das coisas que o faz afirmar isso é a existência de vários festivais de cantoria nesses outros estados, eventos que aqui são promovidos sem tanta força, às vezes tendo Vem-Vem do Nordeste como realizador.

LITERATURA
          Diz a experiência que todo repentista é cordelista, mas que nem todo cordelista consegue ser repentista. Afirmação que atribui uma certa vantagem de dons ao cantador, emboladores e trovadores. Mas a questão é que o cordelista, mesmo trabalhando também com a rima, não raro associa o saber da xilogravura para ilustrar seus pequenos livretos.
           Essa associação entre rima e imagem, metrificada e baseada em fatos históricos, é o que defendem como recurso a ser utilizado em sala de aula. "O cordel já ajudou a alfabetizar, já contou história. A gente canta e escreve o que o povo faz no dia a dia", defende Galego da Viola. Segundo o repentista Damião Ramos dos Santos, o Damião Pernambucano, 61, seus pares lutam pela aprovação da profissão.
             Tendo viajado muito pelo Brasil, ele canta em restaurante, vaquejada e improvisa igual ao colega cordelista José Marciel, 73, o Zezé de Boquim. Sempre calcado no recurso humorístico, fala do cotidiano popular, e muito de uma vida diária do sertanejo. E é a partir daí, da temática cotidiana, que se pode começar a pensar no porque da geração internet não se interessar. É difícil para um garoto de criação extremamente urbanizada ser cativado pela representação de uma vida bucólica tão distante de sua realidade.
            Nesse sentido, Chiquinho D´Além Mar é o mais próximo que se conhece para falar de uma nova geração do cordel. Com os princípios já incorporados, ele ajudado por ser integrante do trio pé de serra Forró de Mala e Cuia. No início do ano passado lançou o livro 'A Invasão Holandesa', como parte de uma vasta pesquisa sobre a história de Sergipe que vem sendo publicada em cordel como 'Mar Vermelho' e 'A Saga dos Guerreiros Tupinambás: A invasão portuguesa e a conquista de Sergipe'.
           Quando começou a fazer poemas ele falava de amor e não sabia direito que tipo poesia fazia. Depois de ter contato com gente que estava nessa trajetória há anos, como Gilmar Santana e João Firmino, ele começou a descobrir possibilidades de rima e de estrutura que poderiam tornar seus versos mais ricos. Hoje, com o trabalho mais amadurecido, seus livretos apresentam visual clean, estética diferenciada, claramente mais moderna, e o tema por si é bastante atrativo e pertinente para o uso em escolas - a história da formação de seu próprio estado.

Foto: Ana Lícia Menezes

Fonte: cinform.com.br

Imagem: cordelsp.zip.net

OS ESTUDOS CULTURAIS E A RELAÇÃO COM A LITERATURA DE CORDEL

Por Leandro Freitas Menezes – UFES


          Resumo: Este artigo se divide em três partes. A primeira mostra um panorama geral sobre a Literatura de Cordel relacionado à sua história, suas características e a uma visão atual sobre esse tipo de literatura. A segunda parte apresenta a vida e a obra de Patativa do Assaré e a terceira uma visão resumida sobre as abordagens mais recorrentes dos estudos culturais. Após isso, descrever-se-á por meio de análise, alguns pontos de intercessão entre as teorias dos estudos culturais e a obra de Patativa, tomando por base alguns de seus poemas.

Palavras chave: Literatura de Cordel; Estudos Culturais; Patativa do Assaré.


1- Introdução
          As pesquisas de Cavignac (1997) e Diégues Jr. (1975) mostram que a Literatura de Cordel teve sua procedência em Portugal. Essa literatura era difundida em forma de folhetos e retratava a vida cotidiana, falava de romances ou de novelas de cavalaria, trazia narrativa de guerras ou de viagens marítimas e, além disso, era divulgada até mesmo a poesia erudita, como a de Gil Vicente, por exemplo. O motivo pelo qual os portugueses utilizavam o cordel para esse fim reside no fato de, no séc. XVI, não existir a imprensa, assim, tão logo a imprensa foi fundada, houve uma decadência no uso do cordel. De Portugal a Literatura de Cordel veio para o Nordeste provavelmente entre o séc. XVI e XVII. No fim do séc. XIX e inicio do séc. XX aparece Leandro Gomes de Barros , famoso repentista e um dos maiores nomes da Literatura de Cordel, pois ele foi responsável pela divulgação do Cordel do nordeste para muitas outras regiões. O nordeste foi o ambiente propício para a gênesis desse tipo de literatura por questões étnicas e sociais, tais como: a organização da sociedade patriarcal; o surgimento de manifestações messiânicas; o aparecimento de bandos cangaceiros; as secas periódicas, provocando desequilíbrios econômicos e sociais; as lutas de família. Esses fatores propiciaram o surgimento de grupos de cantores que expressavam em suas canções o pensamento coletivo e a memória popular. As canções são apresentadas pelos cantadores de duas formas: a primeira é a tradicional, em que se elabora a canção antecipadamente; a segunda é a improvisada, em que geralmente se elabora a canção na hora. A versificação utilizada em geral é a sextilha hexassilábica ou a décima heptassilábica de rimas contínuas. Os temas utilizados são diversos e houve no Brasil pelo menos duas classificações dessas canções: a primeira de Leonardo Mota (1921) em Cantadores; a segunda deve-se a Casa Rui Barbosa sob a orientação de Cavalcante Proença.
          Hoje, a Literatura de Cordel, considerada uma forma de cultura popular, é muitas vezes “[...] associada a certo número de representações negativas que a situam ao lado da literatura menor, em oposição à Literatura” (DEBS, 2000, p. 11). Ainda a propósito dessa discriminação social à literatura popular, a estudiosa Julie Cavignac (1997) mostra que existe uma dualidade no que diz respeito à representação do nordeste. Ela diz que, ao mesmo tempo em que é considerado o berço da cultura brasileira, terra dos poetas e das tradições, o Nordeste também é visto como uma região de selvagens e de místicos, sem história e sem cultura. Assim, o sertão é tido como uma sociedade arcaica e o sertanejo como um homem primitivo . A autora continua dizendo que essa imagem que se faz do sertão é imutável e o Cordel é visto apenas como resquício de uma literatura vinda de Portugal e não como a expressão escrita da poesia e da alma do sertão. Apesar disso, Debs (2000) salienta que a poesia popular independentemente de toda a tradição literária e de toda a aprendizagem ou respeito às regras acadêmicas, e ainda que seja elaborada por cantadores do meio rural que são, em geral, analfabetos, apresenta êxitos dignos de serem reconhecidos.
O objetivo geral deste trabalho é, dentro da situação contextual da Literatura de Cordel como arte popular, analisar e apresentar a poesia lírica e o estilo de um dos grandes nomes do nordeste: o poeta Patativa do Assaré.

3- A Vida e a Obra de Patativa do Assaré
           O poeta nordestino Antônio Gonsalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, teve esse apelido popular em homenagem à cidade onde nasceu e a uma saudosa ave do sertão. Ele é de origem humilde assim como seus conterrâneos. Nasceu filho de lavrador, oficio de que se ocupou desde os oito anos de idade, por esse motivo não pôde freqüentar a escola, tendo aprendido precariamente a ler e a escrever sozinho. No entanto, algo que marcou profundamente a sua vida foi à literatura de cordel, pela qual foi influenciado ainda muito novo, mas suas primeiras composições foram feitas a partir dos 14 anos. Daí por diante, elas se tornaram cada vez mais freqüentes e também não se pode esquecer que tiveram grande influência dos poetas clássicos, por exemplo: Camões. Aos 20 anos de idade, Patativa tornou-se um poeta itinerante, tendo feito diversas viagens e compartilhado sua obra com diversos poetas e cantores. Mais tarde, retornou ao seu lugar de origem e voltou a lavrar a terra que recebeu como herança de seu pai e nunca quis ganhar dinheiro com suas composições artísticas.
A obra de Patativa é riquíssima e sua marca é a oralidade, a fala típica do sertanejo.  O tema principal é a vida do nordestino, assunto tratado pelo poeta em tom de crítica social, mas sua poesia é muito mais que uma crítica de cunho sociológico, pois ele se aprofunda subjetivamente nessas questões, de forma que sua vivência sofrida, porém motivada, é concretizada em seus versos, e a isso se juntam as rimas e a cadência dos versos que se alternam em sílabas fracas e fortes ajudando o crítico ou o leitor comum a compartilhar, com o autor, os efeitos produzidos por esses recursos e a ser tocado pela mesma motivação que tocou o poeta. Assim, pode-se ver perfeitamente Patativa falar sobre: o amor pela terra e pelas paisagens, que são verdadeira fonte de inspiração; sobre a compaixão por aqueles que compartilham com ele os dissabores do clima árido, o labor diário na lavoura e outros afazeres de subsistência; o descaso pelas autoridades; a exploração patronal; o pensamento místico e a vida religiosa; a efemeridade da vida.
          Há dualidade nos poemas de Patativa, quando fala do sertão e da cidade, do rico e do pobre, do progresso e do rudimento das técnicas de trabalho, de maneira que todos esses temas, juntos, caracterizam a filosofia e o estilo do escritor fazendo-nos ver uma marca que lhe é peculiar e que jamais poderia ser encontrada em outro com tanta paixão.

4- Os Estudos Culturais
          Em todo o contexto histórico da humanidade, sempre existiram os dominadores e os dominados e, isso pode ser visto no Contrato Social de Rousseau, quando ele diz que o processo dominante começou no momento em que um homem cercou um pedaço de terra, tomando posse dela e, consequentemente, fazendo homens dependente de si. Pode-se ver também nos estudos de Marx sobre o materialismo histórico, quando o ele falou sobre o modo de produção escravagista, o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista. Há ainda as teorias naturalistas que mostram que o homem é um ser que tem a tendência natural de se associar: o homem não consegue viver só. Dessa forma, isso teria dado origem à sociedade, em que o homem suprime parte de sua liberdade para viver em função de normas e regras coletivas.
          Todos os pressupostos apresentados são importantes para mostrar a dominação no campo político e material sobre os homens. Porém, esse tipo dominação não aconteceu apenas pela força, mas também por meio da chamada dominação cultural. Tal dominação acontece quando uma etnia se intitula melhor do que a outra pelos seus méritos de conhecimento acumulado. É nesse sentido que a palavra “cultura” se torna preconceituosa ao ser apropriada por tais pessoa que pensam assim. Sobre esse conjunto de conhecimento acumulado, Reis (1992) explica que inicialmente só existia a linguagem oral e os conhecimentos e os saberes eram passados as gerações seguinte dessa forma. Posteriormente, com o advento da escrita todos os conhecimentos puderam ser escritos em livros e, assim, se tornou possível que um povo ou uma pessoa adquirisse os conhecimentos de outros povos que até então não era possível. Assim, com a posse de um número maior de conhecimento, aquele que o possui acha-se no direito de dominar sobre outros povos menos favorecidos.
            O pensamento tradicional e elitizante sempre esteve presente. Cevasco (2003) exemplifica isso ao comentar sobre o processo da expansão marítima e da revolução industrial. Dois momentos em que o europeu julgando-se superior aos outros povos e usando a desculpa de que precisavam ser civilizados e precisavam também de cultura, partiram para o seu empreendimento de conquista.
          Um ponto auto da tradição cultural foi marcado pelo pensamento de Matthew Arnold (1822-1898) nos fins do sec. XIX. Nesse período havia grande conturbação política e social e a religião, desacreditada, já não cumpria mais seu papel apaziguador, por isso a literatura para Arnold seria o melhor remédio para a sociedade. Sua teoria visava fazer com que a sociedade se tornasse melhor por meio do conhecimento e “cultura”. Os principais tópicos da teoria de Arnold são: a) a cultura deveria ser estudada e cultivada separado das questões sociais e políticas, diferentemente do que acreditava, que no passado a ideia de cultura e sociedade eram fundidas, e segundo ele esse modelo não se aplicava a sociedade vigente; b) assim, a cultura não era mérito de todos, mas de uma minoria que seria responsável por difundi-la, fazendo de forma paternalista. Arnold fez muitos discípulo e conseguir levar a frente sua teoria debaixo de muitas críticas.
          Em 1950, a partir desse pensamento tradicional e exclusivista de Arnold, Williams viu uma grande oportunidade para mudá-lo. Essa mudança visava transformar a cultura de minoria em uma cultura comum, em outras palavras, tinha o objetivo de resgatar os da “cultura de baixo” e os nivelar com os da alta cultura na produção de sentidos e de valores formados na comunidade e que pudesse ser vivido por todos.
          O surgimento dos estudos culturais está intimamente relacionado à mudança da concepção de cultura. Maria Elisa Cevasco defende que as mudanças semânticas da palavra cultura encapsulam e informam reações às intensas mudanças sociais. Assim, ao lado da acepção tradicional, que entende a cultura como desenvolvimento espiritual e estético bem como algo separado das relações reais e materiais, os estudos culturais a entende na sua acepção antropológica. Aqui, cultura é definida como um modo de vida e é produzida de forma mais abrangente do que pela elite social que se apropriava dela (CEVASCO, 2003).
          Há nos estudos culturais, portanto, uma dilatação do conceito de cultura ampliando a sua abrangência. Dessa forma, cultura não é sinônimo de arte, e nem de algo produzido apenas pelas classes mais favorecidas ou dominantes . Todos os modos de vida fazem parte da cultura, e ela não é descolada da realidade material. Logo, são produtores de cultura tanto Carlos Drummond de Andrade como Patativa do Assaré.  Mas, por que a tradição acadêmica considera o primeiro uma obra canônica (ou de alta literatura) e o segundo literatura menor? A razão está na adoção da acepção tradicional de cultura, considerando como cânone a obra escrita dentro dos padrões estabelecidos pela elite cultural. Nas palavras de Roberto Reis
[...] o conceito de cânon implica um princípio de seleção (e exclusão) e, assim, não pode se desvincular da questão do poder; obviamente, os que selecionam (e excluem) estão investidos da autoridade para fazê-lo e o farão de acordo com os seus interesses (isto é: de sua classe, de sua cultura, etc.) [...] (REIS, 1992).
          Isto posto, fica claro pensarmos os motivos da não canonização dos textos escritos por Patativa do Assaré. Eles supostamente não apresentam verdades universais e valores estéticos porque não são escritos por alguém enquadrado nos padrões da elite cultural. Nem tão pouco fazem parte da cultura na sua acepção tradicional. Ou seja, são excluídos em uma seleção que atende a interesses da classe que seleciona.

5- Análise do Poema “O Sabiá e o Gavião”
          O poema é narrado em primeira pessoa e, no decorrer de todo ele, pode-se perceber as marcas da subjetividade do eu lírico .
O título "O sabiá e o gavião" apresenta a temática sobre a qual o texto tratará. Observa-se que ele é bastante direto, composto apenas de artigo definido e substantivo; outra particularidade que se pode observar é a oposição que existe entre os dois pássaros: o sabiá, ave típica com canto melodioso que encanta e alegra; e o gavião ave destituída dessas características e que, por se alimentar de outras aves, é considerado mau.
           O poema apresenta vinte e quatro estrofes com dez versos (décima) que se alternam entre sete sílabas poéticas, sendo o verso formado pela célula rítmica pé trocaico ou troqueu. Embora a estrutura do poema seja considerada clássica, esse tipo de estrutura é muito usado na poesia popular, especialmente na literatura de cordel (CAVIGNAC, 1997). As rimas são externas: sendo que os primeiros quatro versos são alternados, o quinto e o sexto são emparelhados e os quatro últimos versos são interpolados. Quanto às internas pouco se pode perceber, e as aliterações e assonâncias que aparecem não têm sentido relevante para o texto em geral. Quanto ao som, as rimas acontecem segundo a posição do acento tônico e geralmente são agudas, porque na maioria das vezes rimam com palavras oxítonas ou com monossílabos tônicos; também podem aparecer como graves quando rimam com paroxítonas. Quanto à função vocabular, as rimas se intercalam entre pobres e ricas.
          Um recurso natural, usado pelo autor e que contribui com as rimas e, conseqüentemente, com o sentido do texto, é a linguagem oral regional empregada por ele. Por exemplo, ocorre com certa freqüência a permuta entre um fonema e outro, mostrando o estilo oralizado do sertanejo: armoçá/ frauta/ resorvê/ disciprina. Outro traço importante é a ausência de marca de plural: das coisa boa/ os passarinho cantá/ muitas vez/ dos anima. Pode-se detectar a supressão de fonemas no final das palavras, como em: amá/ fazê/ qué/ sê/ animá/ miserave/ naturá/ celestiá. Sintaticamente, o texto apresenta "erros" de acordo com a norma culta, por exemplo, na expressão mais pió de que a serpente, pode-se ver que o advérbio pior está empregado como um comparativo de superioridade, porém nesse caso deveria usar um advérbio de modo.
O poema trata de uma experiência vivida pelo poeta, em que se pode perceber, no encadeamento dos versos, a expressão, os seus pensamentos, os seus juízos sobre o que descreve e a afetividade com que trata do assunto. No início, o autor faz afirmações deixando bem claro aquilo que ele é em relação aos demais sou cabôco rocêro e, em seguida, cita a falta de amor e de carinho das pessoas pelos animais. Na segunda estrofe ele diz sou bem deferente e, em seguida, exalta a natureza, especialmente o canto das aves. Na sétima, podemos ver o pensamento místico do sertanejo por meio de figuras do cristianismo quando ele trabalha com um antagonismo: o bem (Deus) no momento em que se refere ao sabiá, e o mal (diabo) no instante em que se refere ao gavião.  A partir da oitava estrofe, o poeta deixa clara a evidência de sua experiência ao retomar um fato acontecido em sua infância para, na nona estrofe, voltar no tempo e narrar os fatos acontecidos: diz o poeta que saiu para um lugar próximo a sua casa num pé de juá para escutar o canto dos pássaros. Encontrou ali um ninho com dois filhotes de sabiá. Desde então, aqueles pássaros significaram muito para ele, pois se podem perceber, ao ler o poema, o amor e a ternura que envolveram o poeta. No décimo quarto verso, ele diz: Mas, tudo na vida passa - mostrando a efemeridade da vida. Certo dia, ele acordou e o dia era diferente dos demais, parecia mais triste e sombrio, então, mais que depressa, foi ver o ninho e não encontrou senão o casal de sabiás cantando a falta dos filhotes. Com isso, pode-se notar a compaixão extrema nas palavras do repentista. Na vigésima quarta estrofe, Patativa descreve a malvadeza feita pelo gavião, dizendo: Pois o gavião marvado/chegou lá e fez o que quis. /Os dois fiote tragou,/O ninho desmatelou..., por isso, já ao final do verso, ele mostra toda a sua indignação. Depois de toda essa narração, no vigésimo terceiro verso, Patativa fala a respeito do povo da cidade grande, o que nos dá uma idéia da dualidade cidade grande X sertão, o que é uma marca freqüente ao longo de toda a sua obra.
          Após a leitura, pode-se dizer seguramente que “O Sabiá e o Gavião” corresponde a uma metáfora que marca o eu lírico tão presente no poema, pois a experiência à qual o poeta se refere é a concreta vivida e incorporada por ele durante sua vida, porém, não é a simples realidade de que ele fala, mas uma realidade trabalhada por sua subjetiva vivida, pelas suas emoções interiores submetidas aos seus juízos de valor. O poema constitui uma crítica social as condições de vida impostas pelos grandes latifundiários, que praticamente escravizam os pequenos produtores e os meeiros. E o ponto chave dessa crítica está exatamente da dualidade existente entre o gavião e o sabiá. Na obra de Patativa essas dualidades são recorrentes, como exemplo, pode-se observar o poema “Ingém de ferro” onde ele fala também do pequeno produtor versus os latifundiários criticando-os; outra se pode observar no poema “Cante lá que eu canto cá” onde ele fala de si próprio versus o poeta da cidade e os modos diferentes de conceber essas produções.
Dessa forma, podem-se entender os motivos que levaram o poeta a juntar todos esses recursos para glosar seu mote. Na verdade, vendo o sofrimento do nordestino com a seca e a miséria, a opressão dos ricos fazendeiros sobre os trabalhadores e observando, também, o completo descaso do povo da cidade e das autoridades na resolução desses problemas, isso já seria motivo suficiente para Patativa metaforizar sua experiência no poema.

6- Considerações Finais

           Os estudos culturais vieram a contribuir para se entender a produção cultural com um todo e que, portanto não pode ser algo abstrato como diz Arnold, mas está completamente atrelada a vivência e as experiências concretas como se pode observar o modo como são concebidos os poemas tanto por Patativa quanto para Drummond. Pautada nessa concepção, a cultura deixa de ser exclusivista e pertencente a um pequeno grupo e passa a integrar o todo.
           Nos poemas de Patativa podem-se observar os cenários descritos por ele a respeito do cotidiano, da vida do lavrador, das imposições dos ricos e outros. Por outro lado, observa-se também a crítica de Patativa presente nos poemas contra todas as injustiças cometidas contra os menos favorecidos. Isso está em completa consonância com a teoria dos estudos culturais, na medida em que critica o pensamento tradicional e dominante com o objetivo de resgatar os da “cultura de baixo” e nivelá-los com os da alta cultura.
Com esse conhecimento de que a cultura passa a integrar o todo, pode-se olhar a obra de patativa com outros olhos. O estudo da forma crítica da Literatura de Cordel mostra que esse tipo de literatura deveria ser mais conhecido e mais divulgado. Uma das provas de que o país pouco se interessa por esse tipo de literatura é a pouca divulgação e os poucos teóricos e críticos existentes no Brasil. Assim, com esse descaso quase generalizado, a dita poesia popular fica relegada ao  segundo plano, sendo taxada como poesia ruim de temas e idéias simples; de fácil versificação e de rimas banais; de ingenuidade de sentimentos expressos; com falta de originalidade e criatividade; com pobreza vocabular; com recursos estilísticos limitados; e com uma simbologia indigente. O modo como a sociedade enxerga a poesia popular, especialmente a nordestina, é errôneo porque, como Debs (2000) argumenta, essa é uma poesia que tem êxitos e deve ser reconhecida. O argumento da autora se sustenta no próprio estudo sobre o poeta Patativa do Assaré, considerado um dos grandes poetas sertanejos.

Referências
• AGUIAR e SILVA V. M. de. Teoria da Literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1979.
• ASSARÉ, Patativa. Canta lá que eu canto cá. Ed. Vozes, 1982.
• CASCUDO, L. C. Vaqueiros e Cantadores. São Paulo: Ed. USP, 1984.
• CAVALCANTI, C. A. A. Atualidade da Literatura de Cordel. 2007. 174 f. Dissertação (Mestrado em Letras e Lingüística). Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2007.
• CAVIGNAC, Julie. La littérature de colportage au Nord-Est du Brésil. De l’histoire éscrite ao récit oral. Paris : CNRS Édtions, 1997.
• CEVASCO, Maria Eliza. As Dez Lições Sobre os Estudos Culturais. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.
• DEBS, Sylvie. Patativa do Assaré: uma voz do nordeste. São Paulo: Ed. Hedra, 2000.
• DIÉGUES Jr., M. Literatura de cordel. Rio de Janeiro. Fundação de Assuntos Culturais e Arte-FUNARTE, 1975.
• FIGUEIREDO FILHO, J. de. Patativa do Assaré: novos poemas comentados. Fortaleza, 1970.
• GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ed. Ártica, 2000.
• GUIRAUD, Pierre. A Estilística. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
• Literatura Popular em Versos, Antologia, Tomo II, MEC-Fundação Casa de Rui Barbosa, 1976, 10
• MAXADO, F. O que é Literatura de Cordel? Rio de janeiro: Ed Codecri, 1980.
• MICHELETTI, Guaraciaba. Estilística: um modo de ler poesia. São Paulo: Androsa, 2006.
• REIS, Roberto. “Cânon”. In: JOBIM, José Luis (org.) Palavras da crítica: tendências e conceitos no estudo da literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

Anexo A
O sabiá e o Gavião
Eu nunca falei à toa.
Sou um cabôco rocêro,
Que sempre das coisa boa
Eu tive um certo tempero.
Não falo mal de ninguém,
Mas vejo que o mundo tem
Gente que não sabe amá,
Não sabe fazê carinho,
Não qué bem a passarinho,
Não gosta dos animá.


Já eu sou bem deferente.
A coisa mió que eu acho
É num dia munto quente
Eu i me sentá debaxo
De um copado juazêro,
Prá escutá prazentêro
Os passarinho cantá,
Pois aquela poesia
Tem a mesma melodia
Dos anjo celestiá.


Não há frauta nem piston
Das banda rica e granfina
Pra sê sonoroso e bom
Como o galo de campina,
Quando começa a cantá
Com sua voz naturá,
Onde a inocença se incerra,
Cantando na mesma hora
Que aparece a linda orora
Bejando o rosto da terra.


O sofreu e a patativa
Com o canaro e o campina
Tem canto que me cativa,
Tem musga que me domina,
E inda mais o sabiá,
Que tem premêro lugá,
É o chefe dos serestêro,
Passo nenhum lhe condena,
Ele é dos musgo da pena
O maiô do mundo intêro.


Eu escuto aquilo tudo,
Com grande amô, com carinho,
Mas, às vez, fico sisudo,
Pruquê cronta os passarinho
Tern o gavião maldito,
Que, além de munto esquisito,
Como iguá eu nunca vi,
Esse monstro miserave
É o assarsino das ave
Que canta pra gente uví.


Muntas vez, jogando o bote,
Mais pió de que a serpente,
Leva dos ninho os fiote
Tão lindo e tão inocente.
Eu comparo o gavião
Com esses farão cristão
Do instinto crué e feio,
Que sem ligá gente pobre
Quê fazê papé de nobre
Chupando o suó alêio.


As Escritura não diz,
Mas diz o coração meu:
Deus, o maió dos juiz,
No dia que resorveu
A fazê o sabiá
Do mió materiá
Que havia inriba do chão,
O Diabo, munto inxerido,
Lá num cantinho, escondido,
Também fez o gavião.


De todos que se conhece
Aquele é o passo mais ruim
É tanto que, se eu pudesse,
Já tinha lhe dado fim.
Aquele bicho devia
Vivê preso, noite e dia,
No mais escuro xadrez.
Já que tô de mão na massa,
Vou contá a grande arruaça
Que um gavião já me fez.


Quando eu era pequenino,
Saí um dia a vagá
Pelos mato sem destino,
Cheio de vida a iscutá
A mais subrime beleza
Das musga da natureza
E bem no pé de um serrote
Achei num pé de juá
Um ninho de sabiá
Com dois mimoso fiote.


Eu senti grande alegria,
Vendo os fíote bonito.
Pra mim eles parecia
Dois anjinho do Infinito.
Eu falo sero, não minto.
Achando que aqueles pinto
Era santo, era divino,
Fiz do juazêro igreja
E bejei, como quem bêja
Dois Santo Antõi pequenino.


Eu fiquei tão prazentêro
Que me esqueci de armoçá,
Passei quage o dia intêro
Naquele pé de juá.
Pois quem ama os passarinho,
No dia que incronta um ninho,
Somente nele magina.
Tão grande a demora foi,
Que mamãe (Deus lhe perdoi)
Foi comigo à disciprina.


Meia légua, mais ou meno,
Se medisse, eu sei que dava,
Dali, daquele terreno
Pra paioça onde eu morava.
Porém, eu não tinha medo,
Ia lá sempre em segredo,
Sempre. iscondido, sozinho,
Temendo que argúm minino,
Desses perverso e malino
Mexesse nos passarinho.


Eu mesmo não sei dizê
O quanto eu tava contente
Não me cansava de vê
Aqueles dois inocente.
Quanto mais dia passava,
Mais bonito eles ficava,
Mais maió e mais sabido,
Pois não tava mais pelado,
Os seus corpinho rosado
Já tava tudo vestido.


Mas, tudo na vida passa.
Amanheceu certo dia
O mundo todo sem graça,
Sem graça e sem poesia.
Quarqué pessoa que visse
E um momento refritisse
Nessa sombra de tristeza,
Dava pra ficá pensando
Que arguém tava malinando
Nas coisa da Natureza.


Na copa dos arvoredo,
Passarinho não cantava.
Naquele dia, bem cedo,
Somente a coã mandava
Sua cantiga medonha.
A menhã tava tristonha
Como casa de viúva,
Sem prazê, sem alegria
E de quando em vez, caía
Um sereninho de chuva.


Eu oiava pensativo
Para o lado do Nascente
E não sei por quá motivo
O só nasceu diferente,
Parece que arrependido,
Detrás das nuve, escondido.
E como o cabra zanôio,
Botava bem treiçoêro,
Por detrás dos nevoêro,
Só um pedaço do ôio.


Uns nevoêro cinzento
Ia no espaço correndo.
Tudo naquele momento
Eu oiava e tava vendo,
Sem alegria e sem jeito,
Mas, porém, eu sastifeito,
Sem com nada me importá,
Saí correndo, aos pinote,
E fui repará os fiote
No ninho do sabiá.


Cheguei com munto carinho,
Mas, meu Deus! que grande agôro!
Os dois véio passarinho
Cantava num som de choro.
Uvindo aquele grogeio,
Logo no meu corpo veio
Certo chamego de frio
E subindo bem ligêro
Pr’as gaia do juazêro,
Achei o ninho vazio.


Quage que eu dava um desmaio,
Naquele pé de juá
E lá da ponta de um gaio,
Os dois véio sabiá
Mostrava no triste canto
Uma mistura de pranto,
Num tom penoso e funéro,
Parecendo mãe e pai,
Na hora que o fio vai
Se interrá no cimitéro.


Assistindo àquela cena,
Eu juro pelo Evangéio
Como solucei com pena
Dos dois passarinho véio
E ajudando aquelas ave,
Nesse ato desagradave,
Chorei fora do comum:
Tão grande desgosto tive,
Que o meu coração sensive
Omentou seus baticum.


Os dois passarinho amado
Tivero sorte infeliz,
Pois o gavião marvado
Chegou lá, fez o que quis.
Os dois fiote tragou,
O ninho desmantelou
E lá pras banda do céu,
Depois de devorá tudo,
Sortava o seu grito agudo
Aquele assassino incréu.


E eu com o maiô respeito
E com a suspiração perra,
As mão posta sobre o peito
E os dois juêio na terra,
Com uma dó que consome,
Pedi logo em santo nome
Do nosso Deus Verdadêro,
Que tudo ajuda e castiga:
Espingarda te preciga,
Gavião arruacêro!


Sei que o povo da cidade
Uma idéia inda não fez
Do amô e da caridade
De um coração camponês.
Eu sinto um desgosto imenso
Todo momento que penso
No que fez o gavião.
E em tudo o que mais me espanta
É que era Semana Santa!
Sexta-fêra da Paixão!


Com triste rescordação
Fico pra morrê de pena,
Pensando na ingratidão
Naquela menhã serena
Daquele dia azalado,
Quando eu saí animado
E andei bem meia légua
Pra bejá meus passarinho
E incrontei vazio o ninho!
Gavião fí duma égua!

Fonte: recantodasletras.uol.com.br

Obs: as imagens não fazem parte do artigo ( Grifo Cordel Paraíba)

Imagem 1: parazinet.wordpress.com; Imagem 2: silviamota.ning.com

Poeta faz versão da Declaração dos Direitos Humanos

Por Sara Saar
Do Diário do Grande ABC

          Poeta popular de Diadema, Moreira de Acopiara prepara o lançamento do cordel ilustrado "Declaração Universal dos Direitos Humanos" (Ensinamento, R$ 19, 48 páginas), em edição bilíngue - português e espanhol. Todas as figuras têm autoria do brasiliense Rafael Correa.
          O lançamento do título está previsto para 12 de maio, na Biblioteca Olíria de Campos Barros (Avenida Sete de Setembro, 468. Tel.: 4055-9208), em Diadema. Além de fazer a apresentação, o poeta deve ler o livro "para que todos se familiarizem com o ritmo do cordel", arte originalmente oral.
         O projeto de converter a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) para a literatura de cordel partiu de iniciativa da Secretaria de Educação, de São Bernardo. Entre 2009 e 2010, às sexta-feiras, Moreira ensinava a arte para os alunos do programa EJA (Educação para jovens e Adultos). "Eles se identificavam bastante. Muitos eram nordestinos ou descendentes", associa o poeta nascido em Acopiara, sertão do Ceará. "O cordel tem linguagem fácil de ser assimilada".
          Ao perceber o interesse dos estudantes, a Secretaria solicitou em setembro que o poeta transformasse o documento universal em cordel com a finalidade de distribuir 10 mil exemplares do texto para os alunos do EJA.
          Dez dias foram mais que suficientes para a produção ser finalizada: "Gosto de escrever sob pressão, por encomenda mesmo. Quando a data de entrega está próxima, o texto flui", explica Moreira, que trabalhou em sextilhas com sete síbalas poéticas.
Também bastou circular para a produção crescer, ou seja, a editora contatar Moreira, interessada na sua publicação. "Só assinei o contrato", afirma. E completa: "Não precisei mandar o texto. Eles já o tinham. Depois, só recebi a prova em PDF para ver as ilustrações. O texto é o mesmo".
          Satisfeito com o trabalho desenvolvido com os estudantes do EJA, o poeta que escreveu os primeiros versos de cordel aos 12 anos agora espera a renovação do contrato.

Fonte: dgabc.com.br

Imagem: hjnoticias.blogspot.com

domingo, 6 de março de 2011

ALEXANDRE DE GUSMÃO

AUTORIA: FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO

Musa divina que inspira
Poetas do mundo inteiro,
Traz-me os fluidos do Parnaso
E o saber mais verdadeiro
Pra que eu decante à nação,
Alexandre de Gusmão,
Um grande herói brasileiro!

Mas não se trata de herói
De músculos, de espada e aço,
Nem dos quadrinhos que trazem
Superpoderes do espaço;
Não é filho de deus grego,
Cow-boy, nem homem-morcego,
Nem valentão do cangaço!

Mas como chamar de herói,
Que não brigou nem matou?
Quem não se impôs pela espada,
Quem canhão não disparou,
Quem a lança não brandiu,
Quem bombas nunca explodiu,
Quem País nunca atacou?

Tenha calma, meu leitor,
Vou lhe explicar, não se zangue,
A história desse herói,
Sem guerra, sem bangue-bangue.
Sem flecha, espada ou fuzil,
Que fez crescer o Brasil
Sem jamais derramar sangue!

Esse nome de Alexandre
Ele herdou do seu padrinho,
Um padre que lhe ensinou
Da justiça o bom caminho.
E o sobrenome Gusmão
Vem também do capelão
Como a Bíblia, a hóstia e o vinho.

Trouxe o destino de outro
Alexandre do passado,
O guerreiro macedônio,
De ser grande e preparado...
Só que o guerreiro iracundo
Que conquistou meio mundo
Fez com sangue derramado.

Alexandre de Gusmão
Nasceu no Porto de Santos
Em “Um, meia, nove, cinco”
Numa família de tantos
Irmãos e irmãs queridas;
Até então, oito vidas
Dadas às rezas e aos mantos.

Filho de Maria Álvares;
E Lourenço, cirurgião;
Dos doze filhos nascidos
Têm destaque, ele e o irmão,
Religioso e inventor,
Nosso “Padre-voador”
Bartolomeu de Gusmão!

Inventor do aeróstato,
Foi este padre exemplar
Que provou perante o rei
Que era possível voar;
Ao ver uma bolha quente
Fez um balão ascendente
Por ser mais leve que o ar!

Pois Bartolomeu levou
Alexandre pra Bahia,
No Colégio de Belém
Demonstrou sabedoria;
Foi pra o Colégio das Artes
Por ser de todas as partes
O melhor que existia!

Dali saiu preparado
Diplomado, competente,
Em Latim, Retórica e Ética,
E em Lógica, logicamente,
Em Metafísica, versado
E o título considerado
De “Filósofo excelente”.

Mil setecentos e dez
Com quinze anos de idade
O padre reconhecendo
Sua genialidade
Mandou-o pra Portugal,
Foi pra Corte Imperial
Fazer universidade.

Matriculou-se em Coimbra
Mostrando grande valor.
Ali estudou, formou-se,
Ganhou grau superior.
Com seu saber cientista
Se tornou iluminista
Ganhando anel de doutor.

Dali seguiu pra Paris.
Estudar mais era o plano;
Secretário da Embaixada
Logo assumiu sem engano...
Fez em Sorbonne, fantástico,
O Direito Eclesiástico,
O Civil e o Romano.

Na passagem pela Espanha,
Em Madrid passou semanas
Vendo o Tratado de Utrecht
Com falhas meridianas
E o limite natural
Entre Espanha e Portugal
Nas terras americanas.

Foi em Paris que Gusmão
Aprofundou seu saber
Na Ciência da Política
Mergulhou pra conhecer
Seu sentimento profundo
E o jogo eterno do mundo
Dos mistérios do poder!

Lá na Paris do Rei Sol
A nova luz se acendia
Na mente do brasileiro
Que trocou Teologia
Pela Razão e a Crítica,
Iluminismo e Política,
Direito e Diplomacia!

Desistiu do sacerdócio
Inquisidor antiquado.
Notou que o clericalismo
Da fogueira, era apagado;
E ao ler estratégia e tática
Conheceu a essência prática
Das duras razões de Estado.

E em 19 voltou
A residir em Lisboa.
O Rei Dom João acolheu-o
Como querida pessoa;
O nomeou secretário
E plenipotenciário
Pra defender a Coroa!

No ano 20 cumpriu
Missão muito especial
Negociando em Cambray,
Em plena França real;
Foi um bravo sem bravata
Que se sagrou diplomata
De nível internacional!

Bacharelou-se em Direito,
Tornou-se Doutor em Leis,
Foi destacado pra Roma
No ano de 23
Pra junto às cortes papais
Recuperar o cartaz
Do monarca português!

Até o ano de trinta
Atuou no Vaticano
Fazendo grandes acordos
Pra o bem do seu soberano,
Ganhou, por ser habilíssimo,
O título de “Fidelíssimo”
Pra o Monarca lusitano!

Com o título Dom João V
Compunha o trio de escol;
Pois o título equivalia
A “Rei Católico” espanhol
E o título invejadíssimo
Que era “Rei Cristianíssimo”
Da França, o próprio Rei Sol.

Sete anos e três papas
O viram nesta missão
De defender junto a Roma,
Sua querida nação.
Muitos litígios zerou,
E, de quebra, conquistou,
Dos papas o coração!

Benedito XIII, o Papa,
Chamou-lhe no Vaticano
Chegou a lhe oferecer
O título “Príncipe Romano”
Ele não quis aceitar
Só pra não contrariar
A Dom João, seu soberano!

No ano de 29
A Lisboa regressou
Logo Dom João pra o Brasil
Alexandre despachou
E a nossa realidade
Com muita profundidade
Gusmão de perto estudou.

Dois anos passou conosco,
Retornou a Portugal,
Lá transformou-se em Fidalgo
Da Nobre Casa Real;
Como Ciências, sabia,
Entrou para a Academia
Provando ser genial.

E logo foi nomeado
Pela própria Majestade,
Num cargo bem próximo ao Rei,
“Escrivão da Puridade”,
E por ter visão moderna
Cuidou da política externa
Com brio e capacidade!

Transformou-se em Conselheiro
Mostrando cultura e tino,
Escreveu livro de História
No idioma latino
E por ser hábil e ser sério
Assumiu um Ministério
No Conselho Ultramarino.

O cuidado com o Brasil
Foi um dos encargos seus;
Das relações com o Papa
Cuidava em nome de Deus
E cuidou mais, com denodos,
De ter relações com todos
Os países europeus.

No Conselho Ultramarino
Encontrou a solução
Pra poder qualificar
Nossa colonização
Trazendo família inteira
Dos Açores e Madeira,
Mas, sem escravização!

Trouxe quatro mil casais
Para a região sulina
Rio Grande e Paraná
Também Santa Catarina.
Cada família, uma área...
O que é reforma agrária,
É Gusmão quem nos ensina.

Recomendava a quem vinha
Para o Brasil trabalhar:
Estude rios e minas,
Flora, fauna, céus e mar,
O clima, a arte, a vertente
E os costumes dessa gente
Comer, vestir e rezar.

Dedicou-se a estudar
As produções cartográficas,
Missões, Entradas, Bandeiras,
As bacias hidrográficas,
Relevo, edificações...
Geopolítica por razões
Históricas e geográficas.

Concluiu que os países
Não podem ter suas áreas
Divididas ao sabor
De linhas imaginárias;
Que têm sempre as desvantagens
De deixar milhões de margens
Para interpretações várias.

Sua visão panorâmica
E a mente prodigiosa,
O seu saber filosófico,
Sua ação habilidosa
Deram-lhe mais competência
Para a área da Ciência,
Política e religiosa!

Foi quem criou três bispados
Pará, São Paulo e Gerais.
Criou mais as prelazias
De Cuiabá e Goiás
E como pensava em tudo
Fez o mais profundo estudo
Das questões industriais.

Naqueles tempos longínquos
Deixou um projeto exposto
Obrigando aos poderosos
A pagarem mais imposto
E rebaixando a quantia
Para o pobre que vivia
Do suor do próprio rosto!

E implantou o sistema
Chamado “capitação”
Pelo número de escravos
Que possuía o barão;
Fundiu o ouro e fez barras,
Pra ver se acabava as farras
De tanta sonegação.

Entre 29 e 30
No Brasil permanecia
Em São Paulo, Minas, Rio
Atuou com maestria
Em tudo que o rei mandou
E de quebra, inda aceitou,
Ensinar Filosofia.

Nesse período ele viu
Que as fronteiras da nação
Desenhada em Tordesilhas
Já não tinham mais razão
De usufruir validade
Pois, frente à realidade;
Era simples ficção!

Das Ilhas de cabo Verde
Trezentas, setenta léguas
Ninguém havia medido
E assim, sem metros e réguas
Bandeirantes desde cedo
Fora ocupando sem medo
Sem leis, limites ou tréguas.

Os espanhóis no Pacífico
Se entreteram próximo ao mar,
Destruindo Incas e Maias
E a prata a desenterrar
Se esquecendo de um mundão,
Um profundo De-Sertão
Que tinha pra conquistar!

Neste “vazio” ficava
Pará, Rondônia, Amapá,
Catarina e Mato Grosso
Rio Grande e Paraná,
Amazonas, chão goiano...
Tudo... do Meridiano
De Tordesilhas pra lá!!!

Se a linha era imaginária,
Quem iria imaginar
Se ela ficava mais perto,
Se mais longe ia ficar...
E haja procurar tesouro,
Haja sonhar prata e ouro,
Haja índio escravizar!!!

E assim foram furando
Pântanos, matas, rios, serras;
Fazendo arraiais e vilas
Se apossando em novas terras
Chantando marcos e crivos
E oferecendo aos nativos
Vida escrava ou morte em guerras!

Era a espada cortando,
E a batina benzendo,
O arcabuz trovejando
E a aguardente fervendo,
Miçanga aos índios comprando,
O mato abrindo e fechando
E o nosso Brasil crescendo!

Matas cedendo ao machado,
À foice, ao Rabo-de-galo,
O chifre do boi tangido
Pelo casco do cavalo,
O “hinterland” se ampliando
E Tordesilhas ficando
Sem mais ninguém respeitá-lo!

Além de não existir
Marco e fiscalização
Durante umas oito décadas
Existiu a união
Entre Portugal e Espanha...
Cada qual comeu na manha
Milhões de léguas do “irmão”!

Enquanto aqui, portugueses,
Rasgavam matas a eito,
Cortavam serras e rios
Levando o Brasil no peito,
Na região asiática,
Espanha com a mesma prática
Agia do mesmo jeito!

Mas quando se separaram
As duas nações ibéricas,
As invasões prosseguiram
Fossem calmas, fossem histéricas
Espanha tomou chão luso
Na Ásia e sofreu abuso
De Portugal nas Américas!

Além disso, Sacramento,
Aonde a prata aflorava,
Portugal se achava dono
Mas por dono não se achava
Espanha entrou, não saía...
Quanto mais acordo havia
Mais acordo se quebrava.

Assim como portugueses
Em terras americanas
Comiam terras d’Espanha,
Na Ásia, mãos castelhanas
Com chumbo, espadas, botinas
Engoliam Filipinas,
Molucas e Marianas.

Quanto mais as ambições
No chão se concretizavam
Mais guerras se sucediam,
Mais ódios se destilavam,
Mais corações se partiam
Mais sangue as terras bebiam
Mais vidas se consumavam!

Foi quando se viu que a hora
Não era mais do leão
Que era a hora da raposa
Entrar no campo da ação
Trocando a dor da violência
Pela luz da inteligência;
O chumbo pela razão!!!

E então saíram da cena
Jagunços e generais;
Em vez de brutos guerreiros,
Finos intelectuais
Mapas em vez de canhões...
Em vez do tiro, as razões;
No lugar da guerra, a paz!

E aí brilhou Alexandre
Com mapas e argumentos...
A fala mansa e os estudos
No lugar dos armamentos,
A paciência que ensina
No lugar da adrenalina
Dos músculos sanguinolentos!

Defendeu que o limite
Fosse o rastro do colono,
Com base em rios e serras,
Não em linhas do abandono
Feitas de sonho e confetes...
Era o “Uti possidetis”
Quem ocupa e cuida, é dono.

Foi assim que em quatro anos
Agigantou-se a nação
Alexandre costurou
As bordas de um Brasilzão,
Do Oiapoque ao Chuí,
Até quase Potosí
Com jeitão de coração!

O arco de Tordesilhas
De cara, cresceu três vezes;
No Norte, no Sul, no Centro,
Com chão pra nobres, burgueses,
Pra índios, padres, reinóis,
Com a prata pra os espanhóis,
O ouro pra os portugueses!

Gusmão inda amarrou mais
Que a paz beijaria a terra,
Do Brasil, mesmo que as sedes
Dos reinos chegassem à guerra.
Venceu sem canhão nem bota
Com “quengo”, na maciota,
Que “o bom cabrito não berra”.

Pois este gênio, este herói,
Avô da diplomacia
Brasileira, que deu glórias
E terras à monarquia,
Que a Portugal deu poder
Que fez o Brasil crescer,
Foi vítima da tirania!

Quando Dom José cobriu-se
Com a coroa portuguesa
Marquês de Pombal cobriu
Gusmão com ódio e vileza
O fogo apagou-lhe os brilhos
Da esposa e de dois filhos
E ele morreu na pobreza

A História lhe roubou
As glórias que merecia
Por isto, eu faço justiça
Nesta humilde poesia
A ALEXANDRE GUSMÃO,
Gênio da paz, campeão
Da luz da diplomacia

Fonte Domínio Público
Imagem: blogdocrato.blogspot.com

quinta-feira, 3 de março de 2011

EDITORA LUZEIRO RELANÇA CORDEL DE ANTÔNIO TEODORO DOS SANTOS


Por Varneci Nascimento

Mais uma história fascinante, fruto da lavra do poeta Garimpeiro, intitulado Lágrimas de Palhaço, um texto dos mais eloquentes do mundo cordeliano. Esse poeta realmente garimpou da sua mente, enredos que o consagram como um dos mais inspirados poetas. Os amantes do cordel não podem ficar sem ler essa história.


Veja abaixo as primeiras estrofes:


Neste livro eu vou fazer
Rimas, oração e traço
Não quero que meu leitor
Na letra tenha embaraço
Saiba que agora vai ler
As “Lágrimas de um Palhaço.”


Nossa vida passo a passo
É submersa num véu
Quem triunfa dá um riso
Se julga quase no céu
Quem sofre tem alma presa
Como a caça no mundéu.

O mundo tem por um réu
Um coitado sofredor
Que as vezes é bom cristão
Justo pra Nosso Senhor,
Quando se diz: Coitadinho
Ele já sofreu a dor.

Eu como sou trovador
Quero contar o romance
De quem se viu desprezado
No mais grandioso lance
Quem tiver a mesma sorte
Não tem leito que o descanse.

Quer conhecer o resto da história? Compre o livro.
Contato com a Editora Luzeiro Ltda.
Tel/Fax: (11) 5585-1800/5589-4342
vendas@editoraluzeiro.com.br

Fonte: fotolog.terra.com.br/varnecicordel

CHICO CÉSAR RECEBE ATIVISTAS CULTURAIS DO SERTÃO DA PARAÍBA

Por Roselia Santos

Rosélia Santos e Chico César (Secretário de Cultura da Paraíba)

          Em audiência realizada nesta tarde de quarta feira (02), Chico César, Secretário da Cultura do Estado da Paraíba, recebeu um grupo de ativistas culturais formado pelo professor e historiador J. Ozildo, Rosélia Santos (Autora do blog Espaço Único), Neudo Souza e pelo poeta popular Nego Lopes.

          Durante a audiência que ocorreu no Casarão dos Azulejos, no centro histórico de João Pessoa, entregamos ao secretário Chico César um plano de trabalho que vem sendo realizado pela Casa de Cultura Vereador Francisco Silva, sediada na cidade de Coremas, Estado da Paraíba.

          A referida Casa de Cultura é um espaço que se encontra em funcionamento desde agosto de 2007, integrando ações de lazer, cultura, educação e geração de renda. E, possui como objetivo principal a missão de contribuir para a autonomia da comunidade na gestão de sua memória cultural.

         Na oportunidade, o secretário Chico César nos falou da necessidade de aglutinar as expressões culturais paraibanas e todos aqueles que trabalham com a cultura no Estado da Paraíba. O objetivo da Secretaria de Cultura é realizar ainda no mês de abril um Curso de Capacitação em Projetos Culturais, destinados a esses agentes.

          O produtor José Neudo de Souza, presidente da Casa de Cultura Vereador Francisco Silva, de Coremas, informou ao Secretário Chico César que uma das mais significativas realizações daquela instituição, durante o ano de 2010, foi o ‘Projeto Acordando o Cordel’, que trabalhou a literatura de cordel, considerada uma das grandes manifestações da cultura popular, naquela cidade, que é terra natal de grandes expressões da literatura de cordel paraibana, a exemplo de João Lira, Joaquim Nogueira e Amaro Cordeiro.

          Chico César nos informou que embora a sua Secretaria seja recém-criada, já possui um trabalho desenvolvido. Todas as cidades pólos do Estado já foram visitadas e a Secretaria já dispõe de um mapeamento da situação das atividades culturais desenvolvidas na Paraíba. E, como base nos dados levantados, Chico César pretende elaboração um plano de ações efetivas para sua Secretaria, mesmo reconhecendo que é muito difícil promover a cultura no país. E nos acrescentou ainda que nada existe de concreto quanto aos novos Pontos de Cultura no Estado, principalmente, em João Pessoa. Pois, aguarda uma parceria com o Ministério da Cultura.

           Aproveitando o ensejo, o professor e historiador J. Ozildo presenteou o Secretário Chico César com um exemplar de seu mais novo trabalho (ainda inédito), o livro ‘Patoenses ilustres’, reunindo biografias de mais 150 personalidades ilustres nascidas ou vinculadas à cidade de Patos, num total de mais de 1.100 páginas.

         Após analisar cuidadosamente o material, Chico César elogiou a produção e disse que ‘Patoenses ilustres’ é “livro que dará uma significativa contribuição à história e a literatura paraibana, ainda carente de fontes de pesquisa bibliográfica”.



Neudo Souza, Nego Lopes, Chico César, J. Ozildo, Rosélia Santos

Fonte: espacounicocriativo.blogspot.com

quarta-feira, 2 de março de 2011

ESTUDO PARA CORDEL: PADIM CIÇO CONFESSANDO LAMPIÃO - Rangel Alves da Costa*

      


          O cordel não tinha perna, não andava nesse chão, se não fossem as proezas de Padim Ciço e Lampião. Esses dois cabras da peste, cada um com sua veste, vestiram o imaginário do povo, desde o sertão ao agreste, como o mais puro Nordeste.
          De mil cordéis mais de cem, se não for ainda além, distribui o seu vintém para falar de alguém que é Padim Ciço ou Lampião. Sem faltar muito motivo, o cordelista a seu crivo dos dois vai mostrando a sina, cata de um a batina e do outro a coragem canina. E depois chama os dois, faz pegar mão na mão e manda a igreja e o cangaço caminharem no sertão.
           Sobre o Padim Ciço já disse Arievaldo Vianna: "É o pastor do romeiro/ Nesse sertão nordestino/ Conduzir as multidões/ Na terra foi seu destino/ Sempre mostrou vocação/ Já gostava de oração/ No seu tempo de menino (...) Embora não seja santo/ Perante a Cúria Romana/ O povo diz que ele é/ E seu poder inda emana/ Pois não é ditado novo:/ Dizem que a voz do povo/ É de Deus e não se engana/ Romeiros chegam a pé/ De carro ou de avião/ No túmulo do Padre Cícero/ Fazem a sua oração/ Visitam seu monumento/ Pedindo a todo momento/ Sua bênção e proteção".
             Lampião vem ao seu lado, num cordel mais que arretado de Gonçalo Ferreira da Silva: "No limiar deste século/ houve o recrudescimento/ do cangaço no nordeste/ com o aparecimento/ de Lampião, entre todos/ talvez o mais violento/ Quando dizemos talvez temos medo de engano porque o homem do campo, o pesquisador insano/ mostraram de Lampião/ seu lado bom e humano/ Só por Lampião ter sido/ muito voluntarioso/ por ter tido, já adulto/ a fama de corajoso/ não eram razões concretas/ para se tornar criminoso".
         Verdade é que os dois são como feijão e arroz, se tira um bota o outro e não percebe o que se pôs, mas isso na poesia, pois no outro dia-a-dia, Padim Ciço era a política e Lampião a valentia. Como o cangaço foi religião no sertão, um dia o religioso mandou convidar seu irmão para ir a Juazeiro e lá se tornar Capitão.
          Isso foi em 1926, de março o início do mês, quando chega um mensageiro dizendo a Lampião para seguir pro Juazeiro, para tratar de assunto urgente e verdadeiro. E quem lhe mandava chamar pra uma importante missão não era qualquer mandão, mas muito mais do que isso, o Padim Ciço Romão, religioso e político, homem de batina e mosquetão, mandando no Ceará e muito mais na região.
Padim Ciço disse ao homem que sabia de boca e vão tudo que ele fazia nas caatingas do sertão, mas tinha uma missão e se ele aceitasse além de se tornar Capitão teria o seu perdão. Lampião bem que aceitou, não podia rejeitar, pois era a oportunidade do banditismo deixar, já tinha pensado nisso e agora era o lugar. Mas pelo que a história conta isso ficou no sonhar, pois a Coluna Prestes ele não foi atacar.
          Mas antes de retornar, agora com tal missão, Lampião disse ao Padim que queria confissão, precisava confessar a vida a lhe atormentar, o mal que havia feito e o que estavam a lhe acusar, para deixar tudo certinho, sem nenhum pecado faltar. E contam que Padim Ciço, já cabreiro desse pranto, chamou o Capitão num canto e se puseram a conversar, com Lampião contando tudo e Padim Ciço a chorar.
          Chegou num certo momento, que mesmo no juramento, Lampião foi perguntar por que o homem chorava tanto assim de se acabar. E parando de soluçar, Padim Ciço outras coisas começou a relatar, dizendo que tinha inveja do outro a bandidar, que fazia a mesma coisa se pudesse se largar, deixar tudo na igreja e na política sustentar, pois era o único meio de fazer mundo danar, fazendo brutalidade e de cada inimigo vingar.
             Então Lampião se lembrou de um assunto já ouvido, dizendo que Padim Ciço era mais que decidido e fazia da igreja um verdadeiro partido, trocando hóstia por voto, ameaçando devoto que lhe fizesse desfeita, que era pender pro outro lado do partido da direita. E pra ideia não ter sumiço perguntou ao Padim Ciço se ele era de rebuliço ou o inimigo inventava.
         E Padim Ciço respondeu que era por isso que chorava, pois já não mais agüentava fingir tanto pros fiéis, pois tinha outros papéis que não podia esconder, que era sempre fazer ver o inimigo morrer, a governança lhe obedecer e ele reinar para sempre e toda força merecer. E pra não fugir do seu plano brigava até com o Vaticano e que dirá com um sicrano.
           E segredou a Lampião o que deveria fazer pra matar e não morrer, pra sofrer sem padecer, pra ser bandido e querido, bastando ser como ele, ora do lado dos ateus, ora aos pés de Deus. Pois aquele, disse ele, que vive nesse sertão, não adianta ser querido se o outro lhe vê um bandido.
         E o Capitão deu a benção e não olhou atrás não, seguiu direto pro mundo, pro seu imenso sertão, achou que mudar sua sina era virar lamparina e preferia o Lampião.

Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

  Autor:   Rangel Alves da Costa*

Fonte: cangacoemfoco.jex.com.br

Mote de Ismael Gaião "Quem diz que Deus não existe Só quer mesmo aparecer"

 

O homem faz o feijão
Mudar pela transgenia,
E através da engenharia,
Faz moto e faz avião.
Muda a cor do algodão
Faz uma nuvem chover,
Mas não consegue fazer
Uma semente de alpiste...
Quem diz que Deus não existe
Só quer mesmo aparecer.

Ismael Gaião

Não ter Deus no coração
Talvez, pra muitos ateus,
Seja acreditar que Deus
Viva abaixo da razão.
É triste afirmar em vão
Que em Deus não se pode crer,
Mesmo não podendo o ver
Minha fé sempre resiste!
Quem diz que Deus não existe
Só quer mesmo aparecer.

Felipe Júnior

Desde o amanhecer do dia
Do sol surgindo na Serra
Do esverdiar da terra
Quando a chuva se inicia
Do verde da Melancia
Da Fruta, o amadurecer
Do seco se Florescer
Depois que a chuva persiste
Quem diz que Deus não existe
Só quer mesmo aparecer.

Um Bezerrinho nascendo
Dando seus primeiros passos
A natureza em compassos
Se renovando e crescendo
A presa se escondendo
Para o predador não ver
E a vida faz perceber
Que a natura e Deus, consiste.
Quem diz que Deus não existe
Só quer mesmo aparecer.

Raphael Moura

Os que não crêem no Divino
São chamados de ateus
Quem vive a zombar de Deus
Terá um triste destino
Eu me sinto um pequenino
Ante este Divino Ser
Pois a glória e o saber
N'alma de quem crê consiste
Quem diz que Deus não existe
Só quer mesmo aparecer.

O esplendor da aurora
A chuva que molha o chão
O vôo do Gavião
A fé de quem reza e chora
A sutileza da flora
A manhã, o anoitecer
Tudo isso nos faz crer
Que Deus em amor persiste
Quem diz que Deus não existe
Só quer mesmo aparecer.

Paulo Moura

Oro a Deus todos os dias
por Jesus, seu Filho-Homem
junto d'Ele todos somem
mesmo que seja um Golias
do Pai é a maior das crias
e quem não vê seu poder
pensa que é um maior ser
que o Deus-Homem – e isso é triste –
quem diz que Deus não existe
só quer mesmo aparecer

João Alderney

Fonte Blog do Poeta Felipe Junior
Imagem bemparana.com.br