CORDEL PARAÍBA (DESDE 2010): ESPAÇO DESTINADO À PUBLICAÇÃO DE POEMAS, NOTÍCIAS E INFORMAÇÕES DIVERSAS RELACIONADAS À LITERATURA DE CORDEL (Via celular, acesse o conteúdo completo clicando em "visualizar versão para a web" no final da página.)
CORDEL PARAÍBA
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Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não pertence a coronel./É propriedade do povo:/rico, pobre, velho, novo/deliciam-se deste mel./Rico, pobre, velho, novo/Deliciam-se neste mel.
Pessoal do PP (Partido Poético), trago à baila a série: "revisitando poema" na qual declamo, digo, recito, falo poemas anteriormente postados. Abraço a tod@s e simbora brincar de fazer arte.
Pessoal, com um pouquinho assim de atraso compartilho com vocês um vídeo com poema de minha autoria declamado pelos professores da escola Municipal Augusto dos Anjos (João Pessoa) em homenagem aos estudantes pela passagem do dia deles (11 de agosto). Segue o poema e o vídeo:
"Homenagem dos professores aos estudantes da Escola Municipal Augusto dos Anjos (João Pessoa)"
Por Manoel Belizario
Educandos, aprendizes, saberes de tantas cores
Passeiam por vossas vidas, como colaboradores.
Eles são as ferramentas e vocês os construtores
De um brilhante futuro que exala tão bons odores.
Quem conduz a construção, somos nós seus professores
Buscando vê-los no palco, não por trás, nos bastidores.
Nessa data especial, dedicada a vós, atores,
Personagens importantes, incalculáveis valores
Para a vida desejamos, pois, uma vez detentores
De conhecimentos, logo vos tornareis vencedores.
Num mar de carinho imersos, recebam em forma de versos
Um ramalhete de flores.
Desejamos ver a todos tornando realidade
Anseios hoje plantados no terreno da vontade.
Vê-los presentes na luta pela justa sociedade.
Estudante é alicerce para a coletividade.
Os professores se alegram por ter deles a amizade.
Se, com estudante inundo, por dentro, o globo do mundo,
No último dia 30 de agosto de 2019, das 14h às 16h, foi realizado o primeiro Sarau da história da Escola Estadual André Vidal de Negreiros, localizada na cidade de Goiana, Pernambuco: o "Sarau Poético Poiesis".
O evento foi idealizado pela professora e poetisa pessoense Annecy Venâncio e realizado por toda a equipe da escola. Alunos das turmas orientadas por Annecy, ( 6 C, 6° D, 7° A, 9C) abriram o evento com a música "Asa Branca" e declamaram cordéis dos poetas membros da Academia de Cordel do Vale do Paraíba, Bento Júnior, Marconi Araújo e Raniery Abrantes .
Equipe de professores presentes e a diretora Roberta (quarta da esquerda pra direita)
Apresentação da música Asa Branca
Bento Júnior
Raniery Abrantes Marconi Araújo
Annecy Venâncio
Os mencionados poetas se fizeram presentes e o abrilhantaram por meio da declamação de seus belos poemas de cordel. Além deles, também se apresentou o poeta, cordelista e repentista José João, avô da aluna Heloísa do 6C.
José João
Uma turma orientada pela professora Cintia Rafaelle Queiroz apresentou a teatralização do cordel de Bento Júnior “A Borboleta e o Vagalume.
O "Sarau Poético Poiesis" contou com a apreciação de alunos de diversas turmas da escola que lotaram o auditório permanecendo vidrados nas declamações, teatralizações e nas apresentações musicais.
A partir da alta qualidade das apresentações nosso blog conclui que o O "Sarau Poético Poiesis" foi um grande evento cultural marcado por bom gosto artístico-literário.
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Poetisa Annecy Venâncio
Annecy Bezerra Venancio, natural de João Pessoa-PB, filha de Adeci Venâncio e Aluísio F. de Santana, mãe de Ana Carolina Venâncio. Possui graduação em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba-UEPB, é especialista em Língua, Linguagem e Literatura pelo Centro Integrado de Tecnologia e Pesquisa - CINTEP e é mestranda em Letras pelo programa Profletras, Universidade Federal da Paraíba -UFPB. Possui trabalhos em Literatura, mais precisamente no campo da subjetividade poética.
Da agência Eder Content, colaboração para o TAB, em João Pessoa (PB)
14/08/2019 04h01
É de um celular em São Bento (PB), município do sertão paraibano a 375 quilômetros de João Pessoa, que o pedagogo Carlos Fernandes, 34, posta suas rimas e versos de cordel no Instagram. Com 3.300 seguidores, o perfil Poesia no Tamborete é um reflexo dos novos tempos para a literatura de cordel, que ultrapassou os limites das feiras do Nordeste para invadir a tela do smartphone.
Na rede social, são mais de 66 mil postagens com a hashtag #cordel. Além de Fernandes, outros jovens poetas aderiram à plataforma para renovar a tradição das rimas populares, levando para a internet a herança recebida dos avós nordestinos.
No perfil de Fernandes, a língua é o "nordestinês". Ele diz se inspirar na forma singular do nordestino se comunicar quando decide publicar algo no Instagram. Quando criança, o poeta lia cordéis para os avós analfabetos à luz de uma lamparina, onde nem energia elétrica havia. Hoje, se orgulha quando fala que seus versos ultrapassaram fronteiras por meio do celular.
"É a forma de modernizar a literatura de cordel, às vezes muita gente não tem acesso ao folheto. Ao publicar meus versos, estou divulgando meu trabalho, e as pessoas estão lendo, estão consumindo"
Carlos Fernandes
Os posts dos novos poetas populares, em geral, seguem a mesma métrica e estrutura de uma poesia em cordel impressa, com seis ou sete versos. O design também lembra os folhetos vendidos nos mercados das cidades do interior nordestino. O humor com crítica social e política, marcas do cordel em papel, continuam sendo retratados nas mídias digitais. Há perfis dos mais variados tipos, desde histórias em botecos a enredos que enaltecem o Nordeste.
Filho de cearenses, o jornalista Ailton Mesquita, 33, tem quase 60 mil seguidores no perfil Um Repente por Dia. O primeiro contato com o cordel foi na escola, quando a professora de português fez um trabalho sobre o tema, e os versos e rimas vieram de forma espontânea, lembra ele, que mora na capital federal. "Brasília também tem muito de Nordeste, o sotaque daqui é uma mistura de vários. Mesmo não sendo nordestino, acabo tendo essa aproximação", diz ele.
A inspiração para a página surgiu após postar uma reclamação em versos no Facebook, destinada a uma casa de câmbio. O post viralizou, e a empresa decidiu responder o questionamento também em forma de cordel, concedendo descontos na compra de moeda estrangeira para Mesquita. Com o sucesso e a ajuda de colegas designers, criou o perfil no Instagram. "Vi que tinha como brincar com isso, com humor no cordel."
Manuela Maia, professora da UEPB (Universidade Estadual da Paraíba) e pesquisadora de cordel há 13 anos, acredita que esse movimento da poesia popular nas redes sociais dá visibilidade à literatura nordestina em um espaço ainda mais heterogêneo como é o caso do Instagram, mantendo viva a tradição do cordel. Isso faz com que surjam novos poetas fora do Nordeste, com motes mais atuais, afirma.
"É um movimento de resistência e de registro. O que muda é o dispositivo, a forma de ler. É a visão do povo, que continua na oralidade e na escrita desses novos poetas", resume a especialista. Para Mesquita, o espaço das redes permite levar poesia até para quem não conhece literatura de cordel. "Na internet, você encontra muita arte. É o contato que muitas pessoas nunca tiveram antes", ressalta.
Resistência e crítica popular
Como manifestação da cultura popular, o cordel nem sempre foi bem visto por intelectuais, que viam a literatura que se espalhava pelo Nordeste como poesia "analfabeta", afirma o presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva. "Eles [os intelectuais] não botavam muita fé no cordel. Percebendo a força de inteligência dos cordelistas, preferiam evitá-los e tachá-los de semianalfabetos porque não sabiam produzir texto", lembra o poeta.
Até pelo cunho popular, o cordel sempre foi instrumento de luta e resistência no Nordeste, usado por camponeses, por exemplo, para denunciar os políticos da região, as arbitrariedades de autoridades e o cangaço. "Quando você conhece a história e a riqueza do cordel a partir de poetas portugueses, como Camões, Gil Vicente, você pede desculpas [pelas críticas]", diz Ferreira da Silva.
Recentemente, após o presidente Jair Bolsonaro chamar os governadores do Nordeste de "paraíba" - termo pejorativo usado em partes do Sudeste - o cordel fez valer seu histórico de denúncia e resistência em versos de crítica social no Instagram. O poeta Ailton Mesquita conta que chegou a perder seguidores pelas postagens em seu perfil. "Falar do Nordeste é assumir um lado, o lado da diversidade e do respeito", afirma, contando que foi chamado até de comunista nos comentários.
Versos ao vivo
Para vender seus folhetos nas feiras livres, os poetas populares usavam da oralidade para narrar seus enredos. Dessa forma, conquistavam a plateia atenta. É o que passou a fazer - só que em rede nacional - o cordelista e declamador Bráulio Bessa no programa "Encontro com Fátima Bernardes", da Globo.
O sucesso de Bessa contribuiu para motivar outros poetas a fazerem literatura de cordel nas redes sociais. Aos 24 anos e apaixonado por fotografia, o jornalista paraibano Luís Eduardo Andrade criou a página Verso e Foto, onde posta fotos acompanhadas de um versinho. "Uma vez por semana eu também publico uma poesia completa em vídeo. Não esperava esse sucesso", conta.
Nascido em João Pessoa, Andrade passou parte da infância e da adolescência no município de Serra Redonda (PB), a 105 quilômetros da capital. É de lá e da relação com a família do interior que busca inspiração para os versos e rimas que publica. Nessa "brincadeira", a página já alcançou mais de 10 mil seguidores. O chapéu de vaqueiro, que usa desde os tempos de criança, virou uma característica em seus vídeos. "Na última vez que estive em Campina Grande (PB), algumas pessoas até me reconheceram por causa do chapéu".
Imagem: Reprodução/Instagram
Quem também ganhou notoriedade com posts em vídeos no Instagram foi o bacharel em Direito Hugo Novaes, 31, de Maceió. Hoje, com mais de 191 mil seguidores, ele é destaque em diversas feiras literárias pelo país e faz participações especiais no programa "É de Casa", da Globo.
Em 2016, após o Supremo Tribunal Federal (STF) proibir a vaquejada no país, Hugo decidiu postar um vídeo onde criticava a decisão em formato de rima. Na época, como o Instagram só aceitava vídeos de até um minuto, a poesia foi compartilhada pela metade. Foi aí que teve a ideia de criar o perfil 1 Tema, 1 minuto, 1 Poema, com poesias pautadas por assuntos escolhidos pelos internautas e narradas no limite máximo de um minuto. A página passou de 1.000 seguidores para 10 mil em apenas uma tarde.
Diversidade nos cordéis
As redes sociais também deram visibilidade ao trabalho de mulheres cordelistas num universo dominado por homens. Atual presidente da Academia Sergipana de Cordel, a pedagoga Izabel Nascimento diz que as dificuldades na literatura de cordel não são diferentes de outras áreas. "Mesmo sendo crescente o número de mulheres, [o cordel] é predominantemente masculino. A dificuldade que enfrentamos é a mesma, com preconceitos e machismo", diz.
Filha de cordelistas, Izabel declama críticas por mais igualdade no próprio perfil para um público de 3.100 seguidores, em posts que foram reunidos em um livro. Apesar do sucesso online, ela não deixa de publicar seus próprios folhetos. "O cordel existe até hoje porque tem essa capacidade de se transformar. Tem uma tradição, não podemos abandonar. As redes sociais ampliam, mas não acabam com os folhetos", defende.
A desigualdade de gênero que a pedagoga critica está refletida na própria formação da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, sediada no Rio de Janeiro. Das 40 cadeiras, 36 são ocupadas por homens". O patriarcalismo no Nordeste também era um fenômeno no cordel. Mas há um movimento de mulheres que começam a ter voz nesses espaços", diz a pesquisadora Manuela Maia, da UEPB.
Uma dessas vozes é a da poetisa e cordelista Jarid Arraes, 28, de Juazeiro do Norte (CE). Uma das novas expoentes do cordel pelo país, Jarid levou seus versos para o palco da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) como convidada oficial na edição deste ano.
Nascida no sertão do Cariri, no Ceará, ela é filha e neta de cordelistas. As poesias de Jarid são dedicadas principalmente às mulheres negras, a exemplo da Coleção Heroínas Negras da História do Brasil. Na obra, são resgatadas biografias de negras que marcaram a história brasileira, como Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Tereza de Benguela, Laudelina de Campos, Dandara, entre outras. Além de trazer a mulher para o centro das narrativas do cordel, poetas como Jarid contribuem para resgatar o gênero da literatura brasileira.
Um cordel para contar a história do cordel
Foi através dos portugueses Vindos na colonização Que o Cordel chegou no Brasil Instalando-se na nação Por volta do século 16 Conquistando corações
Irradiando na Bahia Passou de mão em mão No Nordeste encontrou refúgio Para perpetuação Em folhetos eram contados, narrados com emoção.
A década de 1890 é o marco da inauguração Do cordel brasileiro Tendo na primeira publicação de Leandro Gomes de Barros Sua aparição.
O povo todo já sabia das histórias de Lampião Narradas nas rimas como meio de comunicação. O cordel era o jornal da época de então.
Mesmo com a tecnologia Os poetas não deixam de narrar Suas lutas e vivências pela tela do celular mantendo vivos o cordel e a cultura popular.
*Com informações da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e Fundação Casa de Rui Barbosa
O poeta-cordelista, membro da Academia de Cordel do Vale do Paraíba, signatário deste blog, Manoel Belizario, participou de evento cultural, realizado pelos docentes da EJA da escola Augusto dos Anjos no dia 23 de agosto de 2019. Na ocasião Belizario lançou o cordel “Leitura na escola” e declamou alguns de seus poemas.
Momento emocionante para o poeta foi o reencontro com o ex-aluno Lucas
Santana. Lucas declamou um poema de autoria própria e encerrou sua participação
recitando o poema “Por Justiça Social”, de Manoel Belizario. O autor
que tinha lecionado para Lucas no ano de 2016, na escola Tiradentes no Rangel,
relembrou aos presentes o quanto aquele aluno o estimulava a dar aulas, por ser
atento e dedicado. Além disso, rememorou um jogral que ambos protagonizaram nas
aulas à época.
O evento teve recital de outros alunos, apresentação de trabalhos
relacionados ao folclore e se encerrou com a degustação de comidas típicas e
com músicas de forró pé de serra, cantadas por Belizario via playbacks
disponíveis no Youtube.
No próximo dia 10 de agosto, às 15h, o Museu de Arte Popular
(MAPP) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) receberá o projeto “Cordel no
Museu”. A iniciativa, denominada anteriormente de “Cordel do Último Sábado”,
objetiva reunir ativistas culturais, editores, estudiosos, xilógrafos, poetas e
admiradores do gênero, ressaltando o brilho dessa Arte tão nordestina. A
realização é da Pró-Reitoria de Cultura (Procult) da Instituição e da Academia
de Cordel do Vale do Paraíba (ACVPB).
Inserido
na programação com destaque haverá o lançamento da “Obra do Mês”. Trata-se do
livro “Jackson do Pandeiro na Literatura de Cordel”, de autoria de Kydelmir
Dantas. Segundo Kydelmir, o ritmista é ‘meio esquecido’ em seu estado natal no
que se relaciona aos cordéis, não constando, inclusive, nenhum publicado sobre
e com ele, em vida. “Apenas a partir de 1983 é que surgiram alguns poucos
folhetos biográficos falando sobre o Rei do Ritmo”, disse. Ele acrescentou que
foi neste ano do centenário, sobretudo, que os poetas começaram a escrever
cordéis expondo o legado do artista. “Jackson do Pandeiro na Literatura de
Cordel” é proveniente da Coleção Mossoroense e será apresentado pelo escritor e
jornalista Xico Nóbrega.
A obra faz
um recorte histórico, abrangendo janeiro de 1983 a janeiro de 2019, trazendo as
biografias e a presença de Jackson na Literatura de Cordel. “Assim, é
apresentada a visão de cada poeta acerca da vida dele”, enfatizou. Para isso,
foram catalogados mais de 30 folhetos, tanto aqueles que trazem Jackson na
capa, como os em que ele está incluso. “Daí termos dois capítulos: Jackson na
Literatura de Cordel e Jackson em Outros Cordéis”, assinalou.
Kydelmir
Dantas é conhecido no meio literário como entusiasta das Artes, notadamente do
Cordel, tendo promovido, a propósito, inúmeros eventos ao redor do gênero. É
professor, agrônomo, pesquisador, escritor e poeta de Nova Floresta (PB). Entre
os seus livros publicados, boa parte com o selo da Coleção Mossoroense, figuram
“Cangaceiro Atrapaiado”, “Mossoró e o Cangaço”, “As Vaquinhas do Doutor” e
“Síntese Cronológica do Cangaço”.
Na
oportunidade também haverá o lançamento das obras “ABC do bonde desgovernado”,
de Jota Lima Cordelista, “Um coração igual ao teu”, de Gilberto Baraúna, além
de “Alquimia” e “O mensageiro da morte”, de El Gorrión. As declamações ficarão
por conta de Marconi Araújo, Tiago Monteiro, Chico Mulungu, Neto Ferreira,
Mauryce Lima, Anne Karolyne, Josafá de Orós e Ivaldo Batista. A ocasião contará
ainda com a posse de Kyldemir Dantas, Chico D’Assis e Juliana Soares na ACVPB.
O “Cordel
no Museu” prevê mensalmente uma extensa programação, sempre destinada a elevar
a poesia e a todos que estão envolvidos em sua produção. Ademais, a ideia preza
sobremodo pela salvaguarda da memória desses artistas, reverenciando nomes
célebres em Campina, a exemplo de Toinho da Mulatinha, José Alves Sobrinho, Zé
Laurentino e Manoel Monteiro. Outras informações podem ser adquiridas pelo
telefone (83) 3310-9738.
A maior
parte dos cordelistas que participam desta coletânea tem formação acadêmica.
Nestes trabalhos, entretanto, resta preservada a linguagem simples e envolvente
dos cordéis, mesmo quando trata de assuntos sérios como o tema explorado pela
odontóloga Cristine Nobre ou pelo físico Jota Lima. Em outros folhetos da
mostra aparece a objetividade ingênua, própria da literatura de cordel, as
narrativas acentuadas pela oralidade, a musicalidade como característica
marcante deste gênero.
A
Literatura de Cordel vivencia uma fase de transformações. O poeta não expõe
mais seus folhetos nas feiras livres. A tenda agora é eletrônica. Alguns desses
poetas da Academia de Cordel do Vale do Paraíba não têm folhetos impressos.
Toda produção deles está no universo da internet, emocionando e despertando o
interesse das novas gerações. É uma literatura que soube sobreviver, saindo das
casas grandes e senzalas para se transformar em objeto de estudo de
pesquisadores estrangeiros.
O cordel
retrata os anseios e a cultura da região onde nasceu. Entretanto, atualmente
está disseminado em todo o país e até no estrangeiro. Incorporando linguagem e
temas populares, faz uso da fala coloquial com humor e ironia, falando de temas
do folclore, assuntos religiosos, sociais, políticos, episódios históricos e os
chamados “folhetos fesceninos” que muitos estudiosos do cordel chegam a
classificar na categoria de “folhetos de gracejo”, mas, é putaria mesmo, dentro
da transparência franca e um tanto simplória da literatura popular.
Nesta
coletânea não há folhetos “de gracejo” escabrosos, mas não faltam poetas
impudicos. Brevemente lançaremos uma coletânea de cordéis safados que têm seu
lugar de honra. É porque o cordel cobre todas as facetas da vida humana,
incluindo o chamego.
O que se
ressalta é a riqueza poética deste gênero literário. No ritmo e na melodia
construídos com a medida fixa dos versos e a presença de rimas, o cordel também
mexe com o jogo de palavras, constrói expressões poéticas, às vezes líricas, às
vezes visões pessoais, carregadas de significados que só o outro poeta, o que
lê, entende e reconstrói. Pegue-se esta estrofe de Chico Mulungu:
Sou passageiro do tempo
Como uma flecha certeira,
Sem descansar da bagagem
Que trago abrindo porteira
Na estrada que liga, mira
Mulungu a Guarabira,
Por minha existência inteira.
Em seu ofício de poeta, o novo cordelista vai além das cantigas
triviais e despojadas. Ele percorre múltiplas tendências nas veias abertas da
poesia.
Segundo pesquisas acadêmicas, há na Paraíba cerca de 330
artistas do cordel em atividade. Temos aqui 18 deles, com suas rimas fáceis ou
difíceis, pobres ou ricas, narrativas despojadas ou requintadas, evocando suas
experiências pessoais ou botando o dedo nas feridas da humanidade.
O cordelista Marconi Araújo, Presidente da Academia de Cordel do Vale do Paraíba, esteve nesta terça-feira, 30, na Escola Municipal Violeta Formiga, no bairro de Mandacaru, em João Pessoa, onde aplicou oficina de literatura de cordel para alunos do sexto ao nono ano do ensino fundamental daquele educandário. A oficina teve como tema “Jackson do Pandeiro no cordel”, onde os estudantes aprenderam rudimentos da arte de versejar e produziram seus próprios poemas.
A professora Érica Maria, da Escola Violeta Formiga, disse que o projeto “Cordel na Escola” é fonte de inspiração para os docentes. “Poesia tem tudo a ver com nossa escola que leva o nome da poetisa Violeta Formiga, tema de minha primeira aula, onde eu aprendi mais do que os alunos”, disse ela. Violeta Formiga é homenageada pela Academia de Cordel do Vale do Paraíba com um troféu entregue a mulheres de destaque na cultura e arte da Paraíba.
No dia 25 de agosto de 2019, o cordelista Manoel Belizario
tomou posse na Academia de Cordel do Vale do Paraíba durante Sarau “Cantos e
Contos da Cidade” ocorrido na sede do TCE/PB em João Pessoa. O poeta apresentou
o seguinte discurso:
Saúdo a todos presentes
Expondo minha alegria De poder tomar assento Nessa grande Academia Berço maior do Cordel Do qual todo menestrel Quer fazer parte um dia. A primeira vez que vim Ver esta agremiação Fiquei bastante abismado Com cada apresentação Para a coletividade Assistir tudo à vontade Sem pagar nenhum tostão.
A minha vinda agradeço A Raniery e Annecy, Pois por intermédio destes Poetas estou aqui Desfrutando este momento Neste adorável evento Tão belo quanto um rubi. *
Essa ocasião dedico A meu amor Danielle, Que está sempre do meu lado Junto com Emanuelle Filhinha do coração São fontes de inspiração Para verso a flor da pele. * Às minhas irmãs e irmãos, Também dedico a meus pais. Minha mãe que está conosco, Mas meu genitor não mais. Viajou para outro plano É servo do Soberano Dos campos celestiais. * Ofereço aos meus amigos, Parceiros apoiadores, Família de caminhada, Colegas acolhedores, Aos velhos bons camaradas Que iluminam nossa estrada, E a todos meus professores. * Pelo vale do cordel
Eu há quinze anos trafego. Nele as rimas me perseguem, Não luto, logo me entrego. Dessas rimas me alimento Faço delas aposento Um chamego a elas não nego. * Todo esse tempo escrevi
Feito monge solitário,
Porém quando um dia vi
Este elevado cenário
Repleto de Poesia:
Cordel, forró, cantoria
Um caldeirão literário.
*
Pensei “desse agrupamento Quero muito fazer parte, Pois percebo que os poetas Agem para além da arte: Fincam elos de amizade Onde a solidariedade Mutuamente ganha aparte” *
Respeito, Fraternidade
Vejo nesta academia Por isso me interessei Em compor a sinfonia, Dando as mãos numa ciranda. Quando a comunhão comanda Todo sucesso irradia. * Poetas da Academia Pretendo contribuir Com esta instituição Para com vocês seguir Nesse rumo relatado Por vocês apresentado O qual pude pressentir.
Finalizo agradecendo
Toda a receptividade
Que os poetas expressaram
Para com este confrade
Ponho-me a disposição
Junto a esta agremiação
Em favor da sociedade.
João Pessoa, 25 de julho de 2019.
Nessa mesma ocasião, o poeta lançou o cordel “Leitura na
escola”, o qual, a partir do ponto de vista acadêmico, aborda os três tipos de
leitura presentes nas prática pedagógicas das escolas brasileiras que
são a "leitura focada no autor", a "centrada no texto" ou a
"voltada para a interação entre autor, leitor e texto". O poeta
disponibilizou os seguintes trechos do folheto:
"É janela do saber,
Portal maior da cultura,
No qual se viaja ao longe
Seja por letra ou figura
Ou nos vãos do pensamento;
Ponte do conhecimento
Denominado LEITURA!
Ler vai muito além das letras
Penduradas num suporte;
É ver por trás da linguagem,
Multifuncional transporte
Dos sentidos pluricores;
Apreciar os sabores
Que a composição der porte.
A seguir explanaremos
Para o leitor vigilante
As concepções de leitura
Mais aceitas nesse instante
No mundo da academia
Que pesquisa todo dia
Numa produção constante."
[...]
LEITURA CENTRADA NA INTERAÇÃO ENTRE AUTOR, TEXTO E LEITOR
Nessa abordagem a VISÃO
DE LÍNGUA é INTERACIONAL
As atuações humanas
Terão nela seu local
E o rebento do sentido
Só pode ser produzido
Por modo dialogal.
***
O texto é, portanto, espaço
Próprio dessa interação.
O autor é mero operário
Nessa imensa construção
Multipolar do sentido
Que também é construído
Por quem lê com atenção.
***
Assim autor e leitor
Dialogando com o texto
(Re)constroem seu sentido
Embasados no contexto
E também são construídos
Ou mesmo reconstruídos
Pelo texto ou hipertexto.
***
Nesse cenário A LEITURA
Tem base nos elementos
Da língua, mas segue além,
Em constantes movimentos,
Formando complexidade
Na interatividade
Com vários conhecimentos
[...]
Além de estarem presentes neste blog, várias outras postagens literárias do autor podem ser acessadas em diversos sites da internet, no Clube de Autores, no instagram e no Facebook, via página Manoel Belizario - Escritos Literários.