CORDEL PARAÍBA


Publicamos neste espaço/Do poeta renomado/Ao escritor não famoso,

Do doutor ao não letrado./Verso seja rico ou pobre,/Aqui todo mundo é nobre/E seu respeito é sagrado.

Cordelista iniciante/Não fique desanimado/Caso tenha seu poema/Por algum deus desdenhado./Todo e qualquer aprendiz/Tem o direito motriz/De compor verso quebrado.

Bem-vindos, peguem carona/Na cadência do cordel,/Cujo dono conhecemos:/Não é nenhum coronel./O cordel pertence ao povo

/Do velho a sair no novo/Saboreiam deste mel.
(Manoel Belizario)

sábado, 6 de agosto de 2011

O PROBLEMA DE SE ENSINAR A FAZER CORDEL

Por Manoel Belizario


O Brasil está cheio de gente ensinando a fazer cordel. E a meu ver, se a intenção é fazer com que surjam novos escritores, este não é o caminho. Em toda a minha vida escolar ninguém nunca me ensinou a fazer romance, nem conto nem outro gênero literário. E muito menos cordel. E digo mais: produção literária sem obrigação de versificação, métrica e rima é muito mais fácil. E sabem por que me recuso até hoje a esta prática, ou seja, a ensinar a fazer cordel? Porque nas experiências de terceiros que tenho presenciado o resultado qualitativo com relação à rima e métrica tem sido um fracasso. Então, aperta daqui, ajeita acolá e o oficineiro poeta organiza o texto do aluno e no final, fulano de tal produziu um cordel. Sinceramente não tenho coragem de chegar para um aluno meu – cuja qualidade textual/poética esteja sem condições de ser considerada cordel – e dizer: fulano isto aqui não dar para ser exposto então temos que ajeitar. No final o texto fica quase todo sendo meu. E o esforço do aluno, coitado? Com certeza será uma frustração para ele.
O problema, meus amigos, é que cordel é poesia, e uma poesia complexa que requer base de leitura e criatividade do autor. Como podemos cobrar de alguém que produza um texto do qual não possui familiaridade. Façamos um teste com os escritores que estão lendo este post: alguém ensinou a vocês pedagogicamente a fazer cordel ou qualquer outro gênero literário?
Penso que a melhor forma de estimular a produção literária do cordel é o incentivo à leitura. Para tanto ao invés de ensinar a fazer cordel estimulemos os alunos a ler os clássicos do cordel. A ler os cordéis mais badalados da internet. Façamos oficinas de leitura de cordel para expandir o conhecimento dos alunos acerca do tema, apresentemos a história desta literatura, peçamos aos alunos textos em prosa sobre os textos lidos. Bom, depois disso caberá aos alunos decidirem se querem escrever cordel ou não. E claro que deverá ser uma escrita espontânea. Faço outra pergunta aos colegas escritores: vocês começaram a escrever suas produções literárias a partir de uma imposição, a partir de uma obrigação?

Imagem: mundocordel.blogspot.com

4 comentários:

  1. Concordo plenamente com este seu texto.
    O mais que podemos fazer é incentivar, plantar uma sementinha.
    Toda e qualquer poesia antes de ser trabalhada, deve sair da alma, da inspiração.
    Mesmo que um aluno aprenda a métrica, a rima, se não souber alinhavar os versos e se faltar o criar poetico de nada adiantará.
    Um abraço,meu amigo,
    Dalinha Catunda

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  2. Olá Belizário,
    Concordo com você e Dalinha. Mas o que tenho visto e sendo realizado é realmente a divulgação da literatura de cordel - suas origens, a produção nacional e, sobretudo, os grandes clássicos e os autores da atualidade. E, acredito que somente com muito leitura e gosto descobriremos um potencial poeta. O mote fundamental é, realmente, a LEITURA, a experiência vem depois, se o leitor tiver interesse para esta produção literária.
    Abraço,
    Rosário

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  3. Caro poeta Manoel Belizário,

    Concordo em parte com o seu ponto de vista. Nas muitas oficinas e palestras que tenho realizado, a primeira coisa que eu costumo deixar clara para todos os participantes é que o objetivo das mesmas não é "formar novos poetas". Poesia é um dom divino, a pessoa pode se descobrir poeta mas não aprende a ser poeta. Também jamais defendi que o cordel fosse uma disciplina obrigatória nas escolas. Tampouco acho que o professor que não se identifique com essa forma literária deva ser obrigado a trabalhar com ela em classe. Esse tipo de metodologia não funciona. É bom quando há uma empatia tanto por parte do educador, como dos próprios alunos. E essa empatia só acontece quando o professor sabe realmente o valor daquele texto que está sendo trabalhado e sabe explorar as suas possibilidades. É a partir daí que nasce o interesse no aluno. Então o objetivo maior da oficina não é formar cordelistas e sim bons leitores de cordel. Pessoas que saibam discernir o que é um folheto metrificado e rimado corretamente, de forma clara e coesa, com narrativa cativante, capaz de prender a atenção do leitor e do ouvinte. Sim, porque o ideal é que o cordel seja lido em voz alta para que o próprio leitor e seus ouvintes sintam a sua cadência, a sua musicalidade.

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  4. Caro poeta Cancão no texto o problema por mim levantado não são as oficinas de cordel, mas o fato de em muitas oficinas (não em todas) se ensinar a fazer cordel o que, venhamos e convenhamos, é uma prática equivocada que cada vez mais ganha adeptos em nosso país. No texto não há referência específica a oficina de poeta x nem de poeta y - Pois sei, pelo que tenho visto que a intenção das oficinas de cordel Brasil afora é boa, é levar adiante o valor e beleza do cordel, um legado cultural pertencente a cada um de nós brasileiros – Sei também que não é todo oficineiro que ensina a fazer cordel. Quanto a adoção do cordel no ensino público discordo de ti. Por que o romance e a poesia e outros gêneros literários da chamada “literatua erudita” fazem parte da grade curricular do ensino público e o cordel não? Claro que esta perspectiva de inserção do cordel no ensino público não é para que os professores ensinem a fazer cordel . Mas sim na perspectiva de se estudar a história, os textos e os autores. Estudar a relevância e representatividade cultural desta literatura para o nosso país. No mais meu objetivo com o texto é a livre expressão de uma opinião como escritor, mas principalmente como leitor de cordel, pois gosto de escrever, mas muito mais de ler. E muitos cordéis produzidos em oficinas têm frustrado bastante a minha expectativa de leitor e da maioria dos leitores e apreciadores de cordel que conheço. Porém, caso alguém discorde deste meu modo de pensar as colocações são muito bem-vindas, afinal de contas é a pluralidade de idéias e os diferentes pontos de vistas que enriquecem o conhecimento.

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